A VITORIA DE UM PREDESTINADO

In Esporte, Surf On
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Frio, cenário bucólico, juízes em ambiente aquecido, competidores na Água gelada, terral soprando na lata, Tubarão rondando na água e no subconsciente da surfistada, dez mil pontos em Jogo, uma final duplamente inédita, dois goofys, dois brasileiros, um único vitorioso? Certamente não! Além de Gabriel, Ítalo e os goofys lavaram a alma na agua gelada da Baia de Jeffreys.

Os regulares que me desculpem, más Ítalo Ferreira e Gabriel Medina protagonizaram a melhor final de Jeffreys Bay, no mínimo dos últimos dez anos, a supremacia regular foi atropelada por dois Brasileiros que reescrevem a história dos goofy-footers no circuito mundial de surf profissional, em um circuito predominantemente de direitas, em uma etapa predominantemente de regulares, Gabriel Medina quebra o jejum de 31 anos sem vitórias de um goofy, o ultimo tinha sido o sul-africano Mike Burness em 1988, em um ano que o campeonato não valia para o circuito, antes dele, ninguém menos que a lenda viva e o mais agressivo back da história, nascido Marco Jay Luciano Occhilupo,  eternizado como Mark Occhilupo, havia vencido, isso se deu em 1984, é importante falar que outros dois goofys, assim como Gabriel também bicampeões mundiais, caras de carreiras longuíssimas, nunca venceram em J-Bay, eles se chamam Tom Carroll e Damien Hardman, além deles, Damien Hobgood, Michael Lowe e o estiloso Nathan Hedge já fizeram final na difícil onda de Jeffreys Bay, mas assim como os veteranos bicampeões, nunca venceram, imagine vocês que orgulho o Occy e o Burness devem estar sentindo de Gabriel e Ítalo.

Gabriel Medina parece estar destinado a quebrar todos os paradigmas, a arrombar portas fechadas há tempos, sua tocada está lhe credenciando para ser o maior goofy da história, com todo respeito a Carroll, Hardman e Occy.

Bem, a competição começou em 2019 como terminou em 2018, Filipe Toledo dando show em suas baterias, sempre surfando acima dos 16 pontos, com o mar bem menor que no dia final, privilegiando ainda mais seus carvins e o resultado final de suas manobras, sempre apresentando seu repertorio de manobras modernas, inovadoras, mesmo não usando aéreos, Felipe vinha sendo o melhor na água, isso até o dia final.

No dia final o mar subiu, o terral entrou e as ondas perderam aquela face completamente clean, ficando com a parede um pouco encrespada, mesmo surfando muito bem, abrindo sua bateria com uma nota 9.0, Filipe não conseguiu uma backup wave, que fosse suficiente para vencer Ítalo, no duelo dos dois caras mais velozes do circuito, dos dois caras mais furiosos nas execuções de suas manobras, dos dois brasileiros mais bem colocados no ranking, surgiu a primeira grande surpresa do evento, um goofy vencendo o regular mais temido naquelas ondas, um goofy tirando de Filipe a possibilidade do tricampeonato na África, só por isso, essa semifinal já poderia ser classificada como histórica, más, como Gabriel Medina nesse momento já havia avançado para a final, uma final entre dois goofys ocultou a proeza que Ítalo realizou, vencendo o favoritíssimo Filipe Toledo e quebrando uma hegemonia absoluta que já durava dois anos, com esse resultado, alguém quebraria predominância de Ítalo?

Até chegar em Filipe o caminho de ítalo passou por nomes como Freestone, esse cara é bicampeão mundial pro-júnior, más no profissional parece inofensivo, se não reagir em todas as etapas restantes do ano, irá cair, passado o australiano ele chegou em Kelly Slater, que, logo no início do confronto, na disputa da primeira onda, mesmo com Ítalo estando no pico, o americano remou em sua frente, ombro a ombro, olhou Ítalo olho no olho, as câmeras HD mostraram que ele sorriu, mas como maluco ele não é, puxou o bico e deixou Ítalo ir, fazendo seu habitual jogo psicológico na tentativa de induzir o brasileiro ao erro, Kelly é assim, desde que o mundo é mundo ele usa desse expediente, afinal ele nasceu há dez mil anos atrás e não tem nada nesse surf que ele não saiba demais… mas, embora Ítalo por vezes seja extremamente ansioso, jamais sente pressão vinda do adversário, seus erros são oriundos puramente de sua guerra interna, se ele estiver bem consigo mesmo, as pressões externas não surtem menor efeito, na prática, a pressão do tio foi só o comprimento de um roteiro pré-estabelecido desde que Cristo foi crucificado o amor nasceu e foi assassinado, Ítalo passou, o tio legal, estrategista, inacabável e  miseravão, como nós diríamos aqui na Bahia, ficou com a nona posição, Ítalo realmente é barril, desculpem, foi inevitável “largar” o baianês.

Na fase seguinte Ítalo soltinho na vala surfou como se estivesse nas direitas da BF, em sua primeira onda anotou 8.5, Kanoa com a prioridade na mão, entrou na onda errada, parece ter sentido a nota de Ítalo, ao final da bateria a Kanoa furou e vimos o melhor cenário do dia, quatro surfistas nas semi, três deles brasileiros.

Gabriel Medina, pelo meio do caminho nos pregou um susto, na bateria contra o Ryan Callinan,  o brasileiro passou a bateria toda atrás no placar, o mar cochilou, dormiu, roncou e quase não acorda, faltando três minutos para o final, precisando de 9.74, entrou duas series medianas e Gabriel começou uma reação digna de um bicampeão mundial, pegou duas ondas em três minutos, fez o que tinha que fazer para vencer, quando tudo parecia perdido, caminhando para mais um descarte.

Com a saída de Mick, Owen é de longe o cara que tem o maior respeito de Gabriel, os caras são muito amigos e a prova disso é que ele começou a bateria cedendo o pico para o aussie, contudo, em Boney Ards, muito acima do pico em Supertubes, Owen abriu com um 0.87, Gabriel abriu com uma onda sólida, em sua segunda nota manobrou e entubou na seção final, o nome já diz tudo, IMPOSSIBLES, não para Gabriel,  o brasileiro foi recompensado com um 9.0, e, diferente do último confronto entre os dois em J-Bay em 2014, Gabriel venceu, assim como foi na final em Teahupoo ano passado. Gabriel mostrou nessa bateria que o adesivo preto da Rip Curl deve ser respeitado, ao passar de Owen, o brasileiro já fazia sua segunda semifinal em J-bay e seu melhor resultado no ano.

Contra Kolohe, Gabriel foi absoluto, manobrando de Supertubes a Impossibles com seu habitual atack cirúrgico, para essa bateria cabe apenas uma reflexão, em um determinado momento Kolohe precisava de um 7.81, sem a prioridade entrou em uma onda pequena, adiantou inúmeras seções, achou uma pequena rampa e aplicou um aleyoop alto, anotou um 7.5, nota justa, muito justa, justíssima, más alguns fãs mais entusiasmados criticaram a nota do americano, em tese por ser baixa, vamos lá, Jeffreys é uma onda de face aberta, com velocidade e ataques distintos nas diversas seções, Jeffreys pede manobra, Jeffreys pede muita borda,  Jeffreys pede base lip impecável, Jeffreys pede tubo, sim, Jeffreys também pede aéreo, mas, aéreo como única manobra, beira burrice, beira boçalidade, chega a ser esnobe,  a onda é extensa e muito manobrável, pegar onda ruim na tentativa de telegrafar um aéreo como única manobra, e pior, na expectativa de virar, fala muito sobre o fato de Kolohe chegar muitas vezes, mas nunca levar, com surf no pé, variando em suas abordagens, Gabriel devolveu a Kolohe a derrota no Rio, avançou para sua primeira final em J-Bay, esperando por Filipe ou Ítalo.

Na final Gabriel levou Ítalo lá pra fora, para Boney Ards novamente, voltou no jacaré até Supertubes, para se posicionar ponto certo, mas Netuno, que só aceita malandragem do Kelly, mandou uma onda da série para Ítalo, limpa, longa, em pé, o potiguar desferiu várias rasgadas, finalizando na junção, abrindo com 9.10, inteligente Ítalo tratou logo de garantir a segunda nota,  foi para uma intermediária e colocou o bicampeão na kombi, mas não se vence dois títulos mundiais atoa, Gabriel pegou a maior da bateria, em três manobras verticais ele recebeu 9.73, ao contrário de Ítalo que rasgou muito no 9.10, Gabriel verticalizou absurdamente, assumiu maior grau de risco, voltando sempre com as quilhas para fora, recebendo uma nota ainda maior que a de Ítalo, um 9.73, aquilo que até então seria a maior nota da competição, más, faltava a Gabriel usar sua arma letal, aquela que lhe garante as conquistas mais importantes de sua carreira, aquela que, surfando de frente ou de costas, nenhum outro surfista no mundo é capaz de executar melhor que ele,  estamos falando dos tubos senhores, sua última manobra, da última onda, ele finalizou sua competição entubando, vencendo a Ítalo e a ele mesmo, fez um 9.77, enfim saiu a maior nota da competição, colocando Ítalo em uma situação que há muito tempo ele não se via, dentro de uma comb, sem portas, sem janelas, sem faróis, sem freios, sem saída, Gabriel foi absoluto, venceu seu maior algoz com 19.50 de 20 pontos possíveis, em uma competição que um goofy não vencia oficialmente há 35 anos, ele parece que veio para quebrar todos os paradigmas, Filipe havia desenhado uma nova abordagem em Jeffreys surfando de frente, Gabriel inventou uma maneira de vencer onde parecia ser impossível, essa parece ser sua missão, vencer o Impossibles.

Agora o circuito começa a ficar divertido, com Teahupoo, Piscina, França, Portugal e Havaí pela frente, vai ser legal ver os líderes olhando no retrovisor e enxergando Gabriel embalando, Kolohe assumiu a liderança, vai surfar de lycra amarela em Teahupoo, Filipe, John John (ausente), Ítalo, Kanoa e Jordy estão na frente de Gabriel, nenhum deles foi pareô para o campeão naquela onda em outros anos, esse ano Gabriel acordou mais cedo, fez uma vitória inédita em Jeffreys, sua 13º, ultrapassando Joel Parkinson, Teahupoo vem aí e só cabem duas palavras para os adversários do champ, pânico e terror.

Façam suas apostas, apostar em Teahupoo está mais fácil quanto o erro de ser barco a motor e insistir usar os remos, na mesma Teahupoo, entendedores talvez entenderão,  até lá!

RESULTADOS DO ÚLTIMO DIA DO CORONA OPEN J-BAY:

Campeão: Gabriel Medina (BRA) por 19,50 pontos (9,77+9,73) – US$ 100.000 e 10.000 pontos

Vice-campeão: Italo Ferreira (BRA) com 16,77 pontos (9,10+7,67) – US$ 55.000 e 7.800 pontos

SEMIFINAIS – 3.o lugar com 6.085 pontos e US$ 30.000:

1.a: Gabriel Medina (BRA) 14.30 x 14.00 Kolohe Andino (EUA)

2.a: Italo Ferreira (BRA) 17.50 x 14.00 Filipe Toledo (BRA)

QUARTAS DE FINAL – 5.o lugar com 4.745 pontos e US$ 18.000:

1.a: Gabriel Medina (BRA) 15.67 x 14.60 Owen Wright (AUS)

2.a: Kolohe Andino (EUA) 15.43 x 14.10 Adrian Buchan (AUS)

3.a: Filipe Toledo (BRA) 15.00 x 14.40 Sebastian Zietz (HAV)

4.a: Italo Ferreira (BRA) 15.53 x 12.37 Kanoa Igarashi (JPN)

DECISÃO DO TÍTULO FEMININO:

Campeã: Carissa Moore (HAV) por 15,47 pontos (8,50+6,97) – US$ 100.000 e 10.000 pontos

Vice-campeã: Lakey Peterson (EUA) com 14,60 pts (7,33+7,27) – US$ 55.000 e 7.800 pontos

SEMIFINAIS – 3.o lugar com 6.085 pontos e US$ 30.000:

1.a: Carissa Moore (HAV) 14.33 x 12.67 Caroline Marks (EUA)

2.a: Lakey Peterson (EUA) 15.27 x 11.00 Malia Manuel (HAV)

TOP-22 DO JEEP WSL LEADERBOARD – ranking das 6 etapas:

01: Kolohe Andino (EUA) – 33.845 pontos

02: Filipe Toledo (BRA) – 33.280

03: John John Florence (HAV) – 32.160

04: Italo Ferreira (BRA) – 29.950

05: Kanoa Igarashi (JPN) – 29.450

06: Jordy Smith (AFR) – 29.365

07: Gabriel Medina (BRA) – 26.895

08: Kelly Slater (EUA) – 21.055

09: Ryan Callinan (AUS) – 20.130

10: Julian Wilson (AUS) – 18.140

11: Michel Bourez (TAH) – 17.930

12: Owen Wright (AUS) – 17.365

12: Conner Coffin (EUA) – 17.365

14: Seth Moniz (HAV) – 16.800

15: Wade Carmichael (AUS) – 15.735

16: Jeremy Flores (FRA) – 15.375

17: Michael Rodrigues (BRA) – 14.725

18: Willian Cardoso (BRA) – 13.950

18: Deivid Silva (BRA) – 13.950

20: Peterson Crisanto (BRA) – 12.885

21: Adrian Buchan (AUS) – 12.680

22: Caio Ibelli (BRA) – 11.670

——–outros brasileiros:

25: Yago Dora (SC) – 9.970 pontos

27: Jessé Mendes (SP) – 9.830

35: Jadson André (RN) – 5.850

38: Adriano de Souza (SP) – 3.720

40: Mateus Herdy (SC) – 1.595

41: Krystian Kymerson (ES) – 1.330

44: Alex Ribeiro (SP) – 265

TOP-10 DO JEEP WSL LEADERBOARD – ranking das 6 etapas:

01: Carissa Moore (HAV) – 41.175 pontos

02: Sally Fitzgibbons (AUS) – 37.325

03: Stephanie Gilmore (AUS) – 35.065

04: Lakey Peterson (EUA) – 33.850

05: Caroline Marks (EUA) – 32.135

06: Courtney Conlogue (EUA) – 31.590

07: Malia Manuel (HAV) – 27.800

08: Tatiana Weston-Webb (BRA) – 25.120

09: Brisa Hennessy (CRI) – 21.840

10: Johanne Defay (FRA) – 19.930

13: Silvana Lima (BRA) – 16.800

20: Tainá Hinckel (BRA) – 2.610

Texto: Marcos Aurélio Chagas (@marcoaurelioc)

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