Entre a Usura e o Desenvolvimento

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por: Vinicius Jacob

Os Trapiches, a exemplo do Adelaide e Barnabé, hoje espaço de entretenimento, foram durante décadas, uma das principais portas de entrada para carga e descarga de mercadorias que abasteciam o porto de Salvador, bem como um importante entreposto comercial de entrada e saída de produtos para outras localidades do Brasil e do mundo.

Os trapiches serviam como armazéns para o abastecimento da cidade, sendo que o primeiro deles que se tem notícia, data da fundação de Salvador ocorrido em meados do século XVI, construído pelo mestre de obras Luiz Dias, o mesmo que construiu a cidade fortaleza de Salvador.

A partir do século XVII, e com desenvolvimento da capital da Bahia, esses espaços controlados por particulares passaram a ter grande relevância comercial, pois seus proprietários, ricos comerciantes, controlavam através desse aparelho, quase todo o comercio de mercadorias que entrava e partia da Bahia.

Esta importância se deu principalmente porque, embarcações de médio e grande calado não podiam atracar no cais do porto de Salvador, pois suas margens eram muito rasas, restando como alternativa, os ancoradouros dos trapiches, que detinham o controle do transporte de pequenas embarcações, como por exemplo o saveiro, que ia até os navios, buscar as mercadorias, recebendo, portanto, pagamento pelos serviços de ancoragem, cabotagem, armazenamento, transporte de mercadorias e de passageiros.

Esse grupo de comerciantes, durante décadas, formaram com sua influência econômico e político, um lobby poderosíssimo, impossibilitando com seu poder de pressão, a modernização do porto de Salvador, impedindo o progresso da cidade. Vários foram os presidentes da província da Bahia que se deixaram seduzir pelo poder dos donos dos trapiches.

Em 1868, o governo imperial promulgou um decreto entregando à iniciativa privada a construção e modernização do porto de Salvador, decisão essa celebrada pela população da cidade, que devido a precariedade do porto, compravam produtos mais caros, e de qualidade ruim, visto que alguns navios evitavam desembarcar suas mercadorias no porto.

Alguns renomados empresários, dentre os quais Antônio de Lacerda, rico industrial, dono da única fábrica de tecelagem da Bahia, interessados na modernização do porto formaram um grupo de 20 para participar dessa licitação, contudo, os donos dos trapiches, homens importantes na política e comércio a exemplo do Barão Pereira Marinho, Augusto Gomes Moscoso dentre outros, somando um total de 100, entre comerciantes, banqueiros e empresários influentes na Associação Comercial da Bahia, travaram a esperada e ansiada modernização.

A tão sonhada modernização só veio ser concretizada com a chegada ao poder de um político de temperamento forte e pragmático, J. J. Seabra que como ministro de Estado e governador da Bahia, imprimiu uma lógica republicana e capitalista, aterrando boa parte do comercio, construindo o novo e moderno porto de Salvador.

Vinicius Jacob é professor, pesquisador e especialista em História da Bahia

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