Politica

A fábrica de mentiras, versão ampliada

Investigação contra Flávio Bolsonaro expõe o uso sistemático de desinformação na disputa política e acende alerta sobre os limites entre liberdade de expressão e crime eleitoral no Brasil

O Brasil de hoje não vive apenas uma disputa eleitoral. Vive uma disputa pela própria realidade.

E quando a realidade vira campo de batalha, quem domina a narrativa larga na frente — mesmo que essa narrativa seja construída sobre distorções, exageros ou mentiras deliberadas.

O caso recente envolvendo o senador Flávio Bolsonaro ajuda a entender o momento. Filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ele não é apenas um político em ascensão — é herdeiro direto de um modelo de comunicação política que transformou a desinformação em ferramenta de mobilização.

Flávio está no centro de um novo episódio: o ministro Alexandre de Moraes determinou a abertura de inquérito pela Polícia Federal para investigar se o senador cometeu o crime de calúnia contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O motivo foi uma publicação nas redes sociais em que Lula foi associado, sem provas, a crimes graves. Não é debate político. É acusação criminal feita sem evidência — algo que a lei brasileira tipifica claramente como crime.

E esse não é um caso isolado.

Meses antes, o próprio senador já havia publicado que Lula poderia estar envolvido com tráfico internacional de drogas, armas e outras atividades ilícitas — novamente sem comprovação.

A lógica se repete: cria-se uma narrativa forte, emocional, escandalosa — e depois se lança isso nas redes, onde a verificação vem sempre depois, quando vem.

Mas quem é, afinal, Flávio Bolsonaro dentro desse cenário?

Ele é senador da República desde 2018, após uma longa trajetória como deputado estadual no Rio de Janeiro.
Também é pré-candidato à Presidência, carregando o apoio direto do pai e o capital político do bolsonarismo.

Sua carreira, no entanto, sempre caminhou junto com controvérsias — de investigações sobre movimentações financeiras suspeitas até declarações públicas que geraram forte reação política e institucional.

Mais do que um político, Flávio é peça de um ecossistema.

Um ecossistema onde a política não se limita ao Congresso, mas se expande para grupos de WhatsApp, perfis anônimos, canais de Telegram e redes sociais altamente polarizadas.

E esse ambiente não surgiu por acaso.

Estudos recentes mostram que o Brasil vive uma escalada no uso de redes digitais para manipulação política, com uso de robôs, contas coordenadas e campanhas de desinformação em larga escala.

Nesse tipo de ambiente, a mentira não precisa ser convincente — ela só precisa ser compartilhável.

E é aí que entra o papel da extrema direita brasileira contemporânea.

Inspirada em estratégias internacionais, essa ala política entendeu algo simples:
não é preciso provar — basta insinuar.
não é preciso demonstrar — basta repetir.

E quando milhares de pessoas repetem ao mesmo tempo, a mentira ganha aparência de verdade.

O problema é que isso cobra um preço alto.

A democracia depende de um mínimo de consenso sobre os fatos. Quando esse consenso desaparece, tudo vira disputa — inclusive o que é real.

E os sinais estão aí.

Pesquisas recentes mostram que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro para 2026 já nasce extremamente polarizada, com empate técnico em cenários de segundo turno.

Ou seja: quanto mais apertada a eleição, maior tende a ser o uso dessas estratégias.

A Justiça brasileira começa a reagir — ainda que sob pressão e críticas. A abertura de inquéritos por calúnia, difamação e disseminação de fake news indica que há um esforço institucional para impor limites.

Mas o desafio vai além do Judiciário.

Porque combater fake news não é apenas punir quem fala — é reconstruir a importância da verdade.

E talvez esse seja o ponto mais incômodo dessa história toda:

A mentira deixou de ser um desvio na política brasileira.
Ela passou a ser método.

E quando a mentira vira método, a democracia deixa de ser escolha — e passa a ser risco.

Por: César Marques – colunista convidado

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