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Policiais federais ligados ao bolsonarismo se mudam para os EUA e levantam suspeitas de espionagem política

Casal de agentes da PF que atuava em área sensível da inteligência policial se licenciou sem remuneração e foi viver em Arlington, no Texas — mesma cidade de Eduardo Bolsonaro

Dois agentes da Polícia Federal, André de Oliveira Valdez e Letícia da Cunha Padilha, casados e especialistas em inteligência e crimes cibernéticos, tiraram licença não remunerada no início de 2024 e se mudaram para Arlington, no Texas, cidade onde também reside o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A informação foi revelada por reportagem do site The Intercept Brasil e acendeu um alerta entre ex-colegas da corporação e especialistas em segurança.

Segundo a apuração, Valdez e Padilha atuavam na Diretoria de Inteligência Policial (DIP) da PF — setor responsável pelos inquéritos mais sensíveis da instituição. Apesar de já estarem licenciados, suas trajetórias anteriores e conexões políticas estão sob escrutínio. Ambos mantêm relações com figuras da extrema-direita, como o deputado Ubiratan Sanderson (PL-RS) e o próprio Eduardo Bolsonaro. Valdez inclusive foi colega de turma de Eduardo na PF, tendo ingressado na corporação em 2010.

Letícia Padilha pediu licença um mês após o marido e é considerada especialista em investigações cibernéticas. Valdez, por sua vez, atuava em operações de inteligência e chegou a fazer varreduras no gabinete do ministro Alexandre de Moraes no TSE, em 2022, segundo relato de um ex-colega. Ele se apresenta no LinkedIn como agente federal com experiência em operações secretas de vigilância e contrainteligência, o que gerou ainda mais preocupação sobre o potencial de uso de informações estratégicas em favor de interesses políticos.

O ex-chefe do casal na DIP, Alessandro Moretti, é investigado por suposta participação na chamada “Abin paralela”, acusada de espionagem ilegal de adversários políticos durante o governo Bolsonaro.

A Polícia Federal afirmou que não identificou conflito de interesse nos pedidos de licença dos agentes, que alegaram motivos de ordem particular, e garantiu que eles não têm mais acesso aos sistemas da corporação. Ainda assim, especialistas ouvidos pelo Intercept alertam para o grau de risco: “Um vazamento por parte da DIP é do maior grau de risco que se pode imaginar em termos de investigações conduzidas pela PF”, afirmou André Ramiro, pesquisador da Universidade de Stanford.

A mudança repentina do casal para uma cidade norte-americana onde reside o filho do ex-presidente Bolsonaro, pouco após o anúncio de que Eduardo atuaria para influenciar Donald Trump em prol da anistia de seu pai, aumentou as suspeitas de que o afastamento estratégico possa ter como pano de fundo interesses políticos e diplomáticos — inclusive com potenciais impactos geopolíticos, como os recentes embates comerciais entre Brasil e EUA.

Procurados pela reportagem, o Ministério da Justiça, Eduardo Bolsonaro, Ubiratan Sanderson e Alessandro Moretti não responderam. Valdez negou envolvimento em qualquer trama e disse que não compartilha informações sobre ele ou sua família. Letícia Padilha não se manifestou.

A apuração levanta mais uma sombra sobre os possíveis desdobramentos do bolsonarismo nos bastidores da segurança pública e nas relações entre Brasil e Estados Unidos.

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