Crise econômica e medidas de Milei alimentam tensão social na Argentina, mas alegações sobre “carne de burro” e despejos exigem contexto
Venda de carne de burro ocorreu de forma localizada na Patagônia, enquanto as regras de aluguel permitem despejo judicial por inadimplência; não há evidência de que o governo tenha obrigado argentinos a consumir esse tipo de carne ou determinado expulsões automáticas.

A situação econômica e social da Argentina continua gerando críticas ao governo do presidente Javier Milei, mas algumas afirmações que circulam nas redes sociais sobre a crise precisam ser contextualizadas.
Um dos episódios que ganhou repercussão nos últimos meses foi a comercialização de carne de burro na província de Chubut, na Patagônia. Uma empresa chegou a vender cerca de 500 quilos do produto em apenas dois dias, oferecendo-o como alternativa mais barata diante da alta dos preços da carne bovina.
O episódio, porém, não significa que o governo Milei tenha colocado a população para consumir carne de burro. A venda ocorreu de maneira localizada e provocou debate sobre as condições econômicas do país. A própria Secretaria de Produção de Tucumán informou que a comercialização para consumo humano não possui uma regulamentação nacional clara e apontou preocupações sanitárias relacionadas à prática.
Outro ponto que vem sendo associado ao governo é a situação dos aluguéis. Na Argentina, as regras atualmente permitem que um proprietário cobre judicialmente uma dívida e peça o despejo do inquilino que não regularize os pagamentos. Antes de uma ação de despejo por falta de pagamento, o locador deve intimar o inquilino e conceder prazo mínimo de dez dias para quitar a dívida. Caso o imóvel não seja devolvido, o proprietário pode recorrer à Justiça.
Isso também não corresponde a uma determinação de Milei para expulsar automaticamente de suas casas todos os argentinos com dívidas de aluguel. Trata-se de um mecanismo previsto na legislação de locações e sujeito aos procedimentos legais.
Apesar dessas diferenças entre as informações verificadas e as versões mais alarmistas que circulam nas redes, o governo Milei enfrenta oposição e manifestações relacionadas a suas políticas econômicas e sociais. Em maio, por exemplo, dezenas de milhares de pessoas participaram de protestos contra cortes no orçamento das universidades públicas, em Buenos Aires e outras cidades.
O cenário argentino permanece marcado por disputas políticas e sociais em torno das medidas de ajuste implementadas pelo governo. A crise do custo de vida, os preços dos alimentos e as dificuldades de acesso à moradia continuam entre os temas que mais afetam a população e alimentam a pressão sobre a administração Milei.



