Crônicas de Domingo

Quando a democracia dói

Quanbdo nossa jovem democracia está sob risco

Por César Marques

Hoje acordei com um sentimento de perda. Não perdi nenhum parente próximo. Meus pais estão vivos, meus filhos e minha esposa estão com saúde. Ainda assim, uma tristeza tomou conta de mim. O corpo segue sua rotina, mas os pensamentos ficaram presos aos resultados das urnas, tentando compreender o país que apareceu diante dos meus olhos.

Não sei quantas pessoas acordaram assim. Talvez muitas estejam procurando palavras para explicar essa mistura de frustração, indignação e medo. Não é apenas o incômodo de ver um candidato perder. É a sensação de perceber que valores que considero fundamentais podem ter tão pouco peso na escolha de quem vai decidir o nosso futuro.

Alguém certamente perguntará: mas esse não é o sentimento popular? Não é a democracia funcionando? Não são as respostas das urnas?

Sim. E reconhecer isso não torna a dor menor.

Defendemos a democracia com unhas e dentes porque sabemos o preço da sua ausência. Mas ela tem um jeito estranho de fazer a história: pode entregar poder a quem despreza o diálogo, transforma a crueldade em discurso e trata o sofrimento dos outros com indiferença. A liberdade de escolher também permite escolhas que nos parecem profundamente injustas.

É difícil aceitar que o voto possa premiar comportamentos que tentamos ensinar aos nossos filhos a rejeitar. Que a agressividade seja confundida com coragem. Que a mentira repetida encontre mais acolhimento do que uma verdade incômoda. Que o cuidado com quem passa fome seja tratado como fraqueza ou motivo de deboche.

Mas preciso tomar cuidado com a minha própria decepção. Quem votou diferente de mim não se torna, por isso, uma pessoa ruim. Há histórias, necessidades e expectativas que eu desconheço. Posso discordar profundamente de uma escolha sem retirar de quem a fez o direito de participar da vida pública. Esse respeito também será necessário quando eu quiser ser ouvido.

A democracia, às vezes, parece injusta porque contar votos não significa avaliar a justiça de cada decisão. Uma vitória eleitoral dá a alguém o direito de exercer um mandato. Não transforma todas as suas ideias em verdades, não apaga suas responsabilidades e não dispensa a fiscalização.

Por isso, respeitar o resultado não exige silêncio. Posso reconhecer a legitimidade das urnas e continuar denunciando injustiças, cobrando compromissos e defendendo aquilo em que acredito. A cidadania continua na manhã seguinte à eleição, inclusive quando levantar da cama exige um esforço maior.

Hoje senti até vergonha de ser brasileiro. Escrevo isso com tristeza, porque amo este país. Talvez a palavra mais precisa seja desalento: custa olhar para certas escolhas e reconhecer nelas o Brasil que desejo deixar aos meus filhos.

Não tenho uma resposta capaz de desfazer esse sentimento. Tenho, porém, uma responsabilidade. A de não permitir que a frustração me torne indiferente ou me faça abandonar a democracia justamente quando mais preciso da liberdade que ela assegura.

Hoje acordei com um sentimento de perda. Ainda não sei quanto tempo ele vai durar. Mas sei que amanhã continuarei tendo motivos para escrever, questionar e participar. Há um país a construir, e a minha decepção também precisa encontrar uma forma de trabalhar por ele.

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