ELES ACHARAM QUE TINHAM TUDO, SÓ NÃO TINHAM O POVO
Uma crônica sobre a derrota de Flávio Bolsonaro para Lula e o significado de uma eleição que mobilizou milhões de brasileiros\.*

Por César Marques
Eles tinham os discursos ensaiados, as estratégias desenhadas, os aliados espalhados pelos corredores do poder. Tinham palanques, dinheiro, influência, estruturas partidárias e uma poderosa máquina de comunicação. Tinham a convicção de que poderiam conquistar o Brasil. Mas, quando as urnas se fecharam e os votos começaram a contar a história daquele domingo, uma frase parecia resumir o desfecho:
“Eles acharam que tinham tudo, só não tinham o povo.”
A derrota de Flávio Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva, em uma eleição na qual o presidente ultrapassou a marca de 60 milhões de votos, ficará registrada não apenas pelos números, mas pelas diferentes visões de país que estiveram em disputa.
De um lado, milhões de brasileiros que enxergavam na candidatura de Flávio Bolsonaro a continuidade de um projeto político conservador, identificado com a trajetória de seu pai. Do outro, milhões que depositaram em Lula a expectativa de preservar conquistas sociais, fortalecer as instituições democráticas e dar continuidade a políticas públicas voltadas à população mais vulnerável.
E foi nas urnas que essas duas visões se encontraram.
O Brasil acordou dividido, atravessou o domingo dividido e chegou à noite com um resultado definido pela vontade da maioria dos votos válidos. Essa é uma das características mais importantes da democracia: ninguém é dono do voto popular, e nenhum projeto político está acima da decisão soberana dos eleitores.
Há algo de profundamente simbólico na trajetória de Lula. O menino pobre que saiu do Nordeste, enfrentou a fome, trabalhou como operário e chegou à Presidência da República tornou-se um dos personagens centrais da história política brasileira. Sua trajetória reúne vitórias, derrotas, controvérsias e retornos que ajudam a contar as transformações do país nas últimas décadas.
Mais de 60 milhões de votos não representam um cheque em branco. Representam uma responsabilidade gigantesca. Cada voto carrega uma expectativa, uma necessidade, uma esperança ou uma cobrança.
Há o trabalhador que deseja um salário melhor. A mãe que espera uma vaga na creche. O estudante que sonha com a universidade. O aposentado que precisa preservar sua renda. O agricultor que depende da chuva, do crédito e de condições dignas para produzir.
São milhões de histórias diferentes, reunidas por alguns segundos diante de uma urna eletrônica.
E talvez esteja aí a maior lição daquela eleição.
A política pode construir alianças, conquistar espaços institucionais e mobilizar multidões nas redes sociais. Pode reunir empresários, lideranças religiosas, parlamentares e comunicadores. Mas nada disso substitui a necessidade de convencer o eleitor.
O povo não é propriedade de partido algum. Não pertence à esquerda nem à direita. Não cabe inteiro em uma bandeira, em uma pesquisa ou em uma manifestação.
O povo decide. E também cobra.
A vitória de Lula não elimina as divergências do país, assim como a derrota de Flávio Bolsonaro não apaga os milhões de brasileiros que escolheram seu projeto. Todos continuam fazendo parte da mesma nação e têm o direito de participar do debate público.
A democracia exige essa compreensão, especialmente depois de uma eleição tão disputada.
O dia seguinte não pode ser apenas o dia da comemoração dos vencedores ou da frustração dos derrotados. Precisa ser também o dia de reconhecer que o Brasil é maior do que qualquer candidatura.
O poder passa. Os governos terminam. Os presidentes entram para a história, cada qual com suas realizações, seus erros e suas contradições.
Mas o povo permanece.
Permanece nas filas dos hospitais, nas salas de aula, nas fábricas, nos campos, nas periferias e nas pequenas cidades do interior. Permanece trabalhando, reivindicando, esperando e construindo o país que os políticos prometem representar.
Naquela noite de outubro, a contagem dos votos encerrou uma disputa presidencial. Não encerrou os desafios brasileiros.
A fome, a desigualdade, a violência, o desemprego e as dificuldades de acesso aos serviços públicos não desaparecem com uma vitória eleitoral. São problemas que exigem trabalho, responsabilidade e compromisso permanente.
E é justamente por isso que a frase ganha força para além da comemoração de um resultado.
“Eles acharam que tinham tudo, só não tinham o povo.”
Porque, no fim, não basta ter o poder como objetivo. É preciso conquistar a confiança de quem entrega esse poder temporariamente pelo voto.
E lembrar, sempre, que numa democracia a última palavra não pertence aos palácios, aos partidos ou aos sobrenomes.
Pertence ao povo brasileiro.
César Marques — Jornalista | BahiaPress



