Crônicas de Domingo

Lula e Bolsonaro: quando o Brasil precisa escolher de que lado está o Estado

Comparação entre os governos revela dois projetos distintos: A soberania e defesa da pátria é um projeto de perpetuação de poder e tirania

Para entender a diferença entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro não é preciso conhecer economia, decorar números do Orçamento ou acompanhar os discursos de Brasília. Basta olhar para a vida do brasileiro comum.

Olhe para o sertanejo que passou décadas carregando água.

Para a empregada doméstica que nunca imaginou ver um filho numa universidade.

Para a mãe da periferia que precisa colocar comida na mesa.

Para o trabalhador que depende do SUS.

Para quem não tinha energia elétrica em casa.

Para o jovem do interior que precisava abandonar sua cidade se quisesse cursar uma universidade federal.

E então faça uma pergunta muito simples:

O que o Estado fez por essas pessoas?

É aí que aparece uma diferença profunda entre Lula e Bolsonaro.

Lula colocou o pobre dentro do orçamento

Quando Lula chegou à Presidência, em 2003, o combate à fome tornou-se uma das prioridades declaradas do governo.

O Fome Zero colocou a segurança alimentar no centro da discussão nacional. O Bolsa Família unificou programas anteriores, ampliou a transferência de renda e construiu uma política nacional que passou a acompanhar milhões de famílias.

Mas Lula não parou no benefício depositado na conta.

Porque pobreza não é somente falta de dinheiro.

Pobreza também é não ter água.

Não ter luz.

Não ter remédio.

Não ter dentista.

Não ter universidade.

Não ter casa.

Não ter formação profissional.

Não ter atendimento médico quando uma pessoa sofre um infarto ou um acidente.

Foi justamente por isso que surgiu uma rede de políticas públicas destinada a atacar diferentes faces da desigualdade.

O sertanejo ganhou água

Para quem mora numa grande cidade, abrir uma torneira parece uma coisa banal.

Para milhares de famílias do semiárido brasileiro, nunca foi.

A política de cisternas ganhou escala federal durante o primeiro governo Lula e levou estruturas de armazenamento de água da chuva para famílias rurais pobres.

Uma cisterna muda uma vida.

Significa diminuir quilômetros percorridos atrás de água.

Significa cozinhar.

Beber.

Cuidar dos filhos.

Produzir alimentos.

Enfrentar a seca com um mínimo de segurança.

Para uma família do sertão, política pública deixou de ser uma palavra pronunciada em Brasília.

Virou água dentro de casa.

O brasileiro esquecido acendeu a luz

Em 2003 nasceu o Luz para Todos.

Milhões de brasileiros que viviam principalmente em regiões rurais passaram a ter acesso à energia elétrica.

Pense no tamanho dessa transformação.

Uma lâmpada acendeu.

Mas junto dela veio a geladeira.

O ventilador.

A televisão.

A bomba d’água.

A possibilidade de conservar alimentos.

De armazenar medicamentos.

De estudar durante a noite.

De utilizar equipamentos para trabalhar.

O Estado chegou onde o mercado não tinha interesse em chegar.

O pobre também passou a ter dentista

Em 2004 veio o Brasil Sorridente.

Parece pequeno para quem sempre pôde pagar um dentista particular.

Não é.

Durante décadas, para muitos brasileiros pobres, odontologia significava procurar atendimento quando a dor se tornava insuportável e, muitas vezes, arrancar o dente.

O Brasil Sorridente ampliou equipes de saúde bucal, centros especializados e serviços dentro do SUS.

O sorriso do pobre também virou política pública.

Remédio deixou de ser privilégio

Também em 2004 foi criado o Farmácia Popular.

Quem vive de salário sabe o que significa chegar ao fim do mês e precisar escolher entre comprar comida, pagar uma conta ou comprar medicamento.

O Farmácia Popular enfrentou justamente essa realidade.

Medicamentos gratuitos ou subsidiados significam dinheiro que permanece no orçamento da família.

Não é favor.

É política pública.

E quando alguém passa mal? Ligue 192

O SUS não foi criado por Lula. É uma conquista da Constituição de 1988.

Mas durante o primeiro governo Lula foi implantado nacionalmente um serviço que se tornaria parte do cotidiano brasileiro: o SAMU 192.

A Política Nacional de Atenção às Urgências foi instituída em 2003, e o componente móvel — SAMU — passou a ser implantado nos municípios brasileiros dentro do SUS.

É a ambulância que chega quando alguém sofre um acidente.

Quando o trabalhador infarta.

Quando uma criança precisa de socorro.

Quando cada minuto pode separar a vida da morte.

Isso também é política social.

O filho da empregada chegou à universidade

Talvez poucas transformações tenham sido tão simbólicas quanto aquela ocorrida no ensino superior.

Durante muito tempo, universidade pública brasileira foi um espaço majoritariamente distante dos filhos das famílias pobres.

Nos governos Lula começou uma enorme expansão e interiorização das universidades federais.

Foram criadas 14 novas universidades federais desde 2003, segundo o próprio Ministério da Educação. O número de municípios atendidos pelas universidades federais passou de 114, em 2003, para mais de 230 ao final daquele ciclo de expansão.

As vagas nas universidades federais praticamente dobraram entre 2003 e 2010.

E veio o Prouni, oferecendo bolsas em instituições privadas.

Vieram políticas de assistência estudantil.

E a educação profissional foi levada para o interior.

Em 2008, Lula sancionou a lei que criou 38 Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia. A expansão da rede criou centenas de unidades e levou ensino técnico e tecnológico a lugares que jamais haviam recebido uma instituição federal.

O jovem não precisava mais necessariamente sair do sertão para encontrar ensino público federal.

A universidade começou a chegar até ele.

Foi uma mudança material.

Mas também uma revolução simbólica.

Porque o filho da empregada doméstica começou a dividir a sala de aula com o filho do patrão.

O trabalhador também precisava ganhar mais

Lula compreendeu outra coisa fundamental: política social não poderia significar somente benefício.

Era preciso fortalecer a renda do trabalho.

Durante seus primeiros governos houve forte valorização real do salário mínimo.

Isso atingiu trabalhadores, aposentados, pensionistas e milhões de famílias.

E existe uma característica fundamental no dinheiro colocado na mão de quem ganha pouco:

ele circula.

O pobre não pega o aumento do salário mínimo e manda para uma conta no exterior.

Compra carne.

Compra arroz.

Compra roupa.

Compra material escolar.

Vai à farmácia.

Conserta a casa.

Compra no mercadinho.

Vai à feira.

Assim, distribuir renda na base também movimenta a economia.

E ainda veio a casa própria

Em 2009 surgiu o Minha Casa Minha Vida.

Para milhões de brasileiros, a casa própria era um sonho distante.

O programa criou subsídios e financiamento habitacional em grande escala, especialmente para famílias de menor renda.

Uma chave entregue representa muito mais do que quatro paredes.

Representa patrimônio.

Segurança.

Um endereço.

A possibilidade de deixar de comprometer grande parte da renda com aluguel.

E Lula voltou

Quando Lula retornou à Presidência em 2023, vários desses programas foram retomados ou reformulados.

Voltaram o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida.

O Farmácia Popular foi ampliado.

O Luz para Todos ganhou nova etapa.

A política de valorização do salário mínimo voltou.

E surgiu o Pé-de-Meia, que paga incentivo financeiro para ajudar estudantes pobres do ensino médio público a permanecer na escola.

A lógica permanece a mesma:

o Estado precisa enxergar quem nasceu embaixo.

Então veio Bolsonaro

É justamente aqui que a comparação se torna dura.

Seria factualmente incorreto afirmar que durante os quatro anos de Jair Bolsonaro não existiu absolutamente nenhuma política social.

Existiram.

O Auxílio Emergencial foi fundamental durante a pandemia. Houve também o Auxílio Brasil, que substituiu o Bolsa Família, e o Casa Verde e Amarela.

Mas essa não foi a identidade política construída pelo bolsonarismo.

Compare os símbolos.

Lula colocou no centro de seu projeto político palavras como fome, salário, universidade, moradia, agricultura familiar, eletricidade e transferência de renda.

Bolsonaro colocou no centro de sua mobilização política armas, guerra cultural, anticomunismo, costumes e o lema “Deus, Pátria, Família”.

São prioridades reveladoras.

Enquanto um governo falava em livros, o outro falava em armas

Durante o governo Bolsonaro foram editados sucessivos atos flexibilizando regras de aquisição e acesso a armas e munições.

Isso não aconteceu escondido.

Era bandeira política.

Era discurso.

Era símbolo.

O cidadão armado foi transformado em representação de liberdade.

Enquanto isso, o país se dividia cada vez mais entre “nós” e “eles”.

Adversários passaram a ser tratados como inimigos.

Instituições foram atacadas verbalmente.

O sistema eleitoral foi colocado reiteradamente sob suspeita.

O Supremo Tribunal Federal tornou-se alvo constante do discurso político bolsonarista.

E aquilo que durante anos foi tratado como simples “retórica” terminou numa questão criminal de enorme gravidade.

Em 2025, Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão, entre outros crimes, por golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. A condenação tornou-se definitiva. (Notícias STF)

Portanto, falar hoje em tentativa de ruptura institucional não é apenas uma acusação de adversários.

É fato reconhecido numa condenação criminal definitiva.

Então chegou a pandemia

Talvez nenhum episódio revele tanto a diferença sobre o papel do Estado quanto a Covid-19.

O Brasil ultrapassou a marca de 700 mil mortes pela doença.

É incorreto atribuir cada uma dessas mortes pessoalmente a Bolsonaro. Uma pandemia dessa dimensão possui inúmeras causas e atingiu o mundo inteiro.

Mas isso não elimina a responsabilidade política de analisar como o governo federal respondeu à maior emergência sanitária de sua geração.

Bolsonaro minimizou repetidamente a gravidade da Covid-19, entrou em conflito com medidas sanitárias, promoveu medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença e protagonizou confrontos públicos em torno da vacinação.

A CPI da Pandemia investigou, entre outros pontos, as negociações e a demora nas tratativas relacionadas à aquisição de vacinas.

Enquanto profissionais do SUS lutavam dentro das UTIs, o Brasil assistia a uma guerra política sobre máscara, isolamento, vacina e tratamento.

A saúde pública precisava de uma mensagem nacional clara.

Recebeu conflito.

A religião transformada em instrumento político

Também é impossível compreender o bolsonarismo sem falar de religião.

“Deus acima de todos” tornou-se elemento permanente de sua comunicação.

Bolsonaro construiu alianças políticas importantes com lideranças evangélicas e também recebeu apoio de setores católicos conservadores.

Isso é diferente de dizer que evangélicos foram “manipulados”.

Milhões de evangélicos possuem convicções políticas próprias, e milhões sequer apoiam Bolsonaro.

Mas existe evidência acadêmica de que o apoio de lideranças religiosas exerceu influência eleitoral relevante em favor de Bolsonaro em 2022. Pesquisa publicada na Revista Brasileira de Ciência Política encontrou efeito do apoio de lideranças tanto evangélicas quanto católicas sobre a probabilidade de voto no então presidente. (SciELO)

A crítica, portanto, não deve ser dirigida ao fiel.

Muito menos à pequena igreja de bairro.

A pergunta deve ser dirigida aos políticos:

quando a fé deixa de servir à espiritualidade e passa a ser utilizada como instrumento eleitoral de poder?

Jesus não pertence à esquerda.

Também não pertence à direita.

E o projeto familiar?

Bolsonaro nunca foi um fenômeno político isolado.

Seus filhos construíram carreiras políticas próprias.

Flávio chegou ao Senado.

Eduardo chegou à Câmara dos Deputados.

Carlos construiu sucessivos mandatos na política municipal.

Isso, isoladamente, é perfeitamente legal. Famílias políticas existem em praticamente todos os campos ideológicos brasileiros.

O problema surge quando a preservação do poder político familiar se confunde com a utilização das instituições.

E os acontecimentos posteriores ao governo Bolsonaro tornam essa discussão ainda mais grave.

Em junho de 2026, o STF condenou Eduardo Bolsonaro a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo. Segundo a decisão unânime da Primeira Turma, ficou comprovada sua atuação para interferir no julgamento da ação penal relacionada à tentativa de golpe em que seu pai havia sido condenado. (Notícias STF)

Isso permite fazer uma crítica objetiva à atuação internacional de Eduardo Bolsonaro.

Mas não permite afirmar, sem prova, que a família deseja literalmente “transformar o Brasil numa colônia dos Estados Unidos”.

A crítica mais séria é outra:

quando um político brasileiro busca no exterior pressão capaz de interferir no funcionamento das instituições de seu próprio país, surge uma questão legítima e gravíssima sobre soberania nacional.

Soberania significa que o destino político do Brasil deve ser decidido pelos brasileiros e pelas instituições brasileiras.

Não por Washington.

Não por qualquer governo estrangeiro.

Eis a antítese

É aqui que Lula e Bolsonaro aparecem como antíteses políticas.

Não porque Lula seja perfeito.

Não é.

Nenhum presidente é.

Os governos petistas tiveram erros, crises e escândalos que também pertencem à história e devem ser cobrados.

Mas estamos comparando projetos de governo e prioridades sociais.

E nesse campo a diferença é enorme.

De um lado:

Bolsa Família.
Fome Zero.
Cisternas.
Luz para Todos.
Farmácia Popular.
Brasil Sorridente.
SAMU.
Prouni.
Universidades federais.
Institutos Federais.
Assistência estudantil.
Programa de Aquisição de Alimentos.
Minha Casa Minha Vida.
Valorização do salário mínimo.
Pé-de-Meia.

Do outro lado, um governo cuja identidade política ficou marcada muito mais pela flexibilização das armas, pelas guerras culturais, pelos conflitos institucionais, pelo questionamento do sistema eleitoral e por uma mobilização permanente contra inimigos políticos.

A comparação não significa dizer que Bolsonaro jamais executou uma política social.

Significa perguntar qual foi o centro de cada projeto.

No final, pergunte ao pobre

Talvez Brasília complique aquilo que a vida explica de maneira muito simples.

Pergunte ao sertanejo o que significa uma cisterna cheia.

Pergunte à família rural o que significou acender uma lâmpada pela primeira vez.

Pergunte ao diabético o que significa pegar seu medicamento gratuitamente.

Pergunte à mãe o que significa uma ambulância do SAMU chegar quando o filho está entre a vida e a morte.

Pergunte à empregada doméstica o que significa assistir à formatura do filho.

Pergunte ao jovem do interior o que significa encontrar uma universidade ou um Instituto Federal perto de casa.

Pergunte a uma família o que significa receber a chave da casa própria.

É assim que se mede uma política social.

Não pelo tamanho do discurso.

Mas pelo tamanho da transformação que ela produz na vida de quem nunca teve quase nada.

Lula construiu seu projeto político apostando que o pobre deveria entrar no orçamento, na universidade, no mercado consumidor e nas prioridades do Estado.

Bolsonaro construiu o seu apostando principalmente na mobilização ideológica, no conservadorismo, nas armas, no confronto e numa guerra política permanente.

Essa talvez seja a maneira mais simples de explicar a diferença entre os dois.

Um projeto pergunta como o Estado pode chegar ao brasileiro esquecido.

O outro transformou grande parte de sua força política em convencer brasileiros de que havia inimigos a combater.

E quando retiramos os slogans, as bandeiras e as paixões partidárias, sobra a pergunta que realmente interessa:

Depois que cada um governou o Brasil, o que ficou dentro da casa do pobre?

É aí que a história deixa de ser propaganda.

E começa a fazer a conta.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Abrir bate-papo
Olá
Podemos ajudá-lo?