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Editorial: A soberania brasileira está sob teste — e a democracia precisa estar preparada

A retomada da Doutrina Monroe pelos Estados Unidos, em meio à disputa eleitoral brasileira, exige vigilância institucional, transparência e uma resposta firme em defesa da soberania nacional

Há momentos em que uma declaração diplomática deixa de ser apenas uma declaração diplomática. A decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos de recuperar a Doutrina Monroe e afirmar que o “domínio americano” no Hemisfério Ocidental jamais será questionado deveria provocar no Brasil mais do que indignação nas redes sociais: deveria provocar reflexão, vigilância e preparação institucional.

Não se trata de afirmar, sem provas, que Washington esteja preparando uma intervenção militar no Brasil ou um golpe de Estado. Tampouco há, neste momento, evidência pública suficiente para afirmar que exista um plano norte-americano para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva caso ele vença democraticamente as eleições de 2026.

Mas seria irresponsável ignorar os sinais de uma mudança de postura dos Estados Unidos em relação à América Latina.

A Doutrina Monroe, criada no século XIX, historicamente serviu para estabelecer o continente americano como área de interesse estratégico de Washington. Ao ressuscitar esse conceito em pleno século XXI e declarar que a hegemonia norte-americana na região não será questionada, o governo Donald Trump envia uma mensagem política que não pode ser tratada como irrelevante.

E o Brasil está no centro dessa disputa.

O que está realmente em jogo?

A questão fundamental não é saber se os Estados Unidos gostam ou não do governo brasileiro. Democracias maduras convivem com divergências entre governos.

A questão é outra: quem tem o direito de escolher o presidente do Brasil?

A resposta deveria ser absolutamente inequívoca: o povo brasileiro.

Nenhum governo estrangeiro, por mais poderoso que seja, pode decidir quem governará o Brasil. Nenhuma potência econômica ou militar pode determinar o resultado de uma eleição brasileira. E nenhum grupo político nacional pode recorrer a uma potência estrangeira para tentar obter aquilo que não conseguiu conquistar nas urnas.

É justamente por isso que qualquer sinal de interferência externa precisa ser investigado com seriedade.

Reportagens e análises recentes já apontam preocupação com uma eventual atuação dos Estados Unidos sobre o processo eleitoral brasileiro, inclusive por meio de influência política, redes sociais e campanhas de desinformação. A possibilidade de interferência estrangeira nas eleições também foi apontada anteriormente por especialistas ligados à International IDEA.

Isso não significa que toda manifestação de autoridades norte-americanas seja uma operação de intervenção. Significa que o Brasil precisa estar atento.

E se Lula vencer?

Essa talvez seja a pergunta que mais incomoda.

Se Lula vencer as eleições de 2026 de forma legítima, poderá existir uma tentativa de impedir sua posse?

Em uma democracia consolidada, a resposta deveria ser simplesmente não.

O resultado eleitoral deve ser respeitado. O vencedor constitucionalmente reconhecido deve assumir o cargo.

O problema começa quando forças políticas passam a trabalhar para deslegitimar antecipadamente uma eleição que ainda nem aconteceu.

É aí que a experiência brasileira recente serve de alerta. O país já assistiu à tentativa de desacreditar o sistema eleitoral, à mobilização contra instituições democráticas e aos ataques de 8 de janeiro de 2023.

Por isso, não podemos esperar que uma eventual crise aconteça para somente então perguntar se estávamos preparados.

É preciso diferenciar, entretanto, risco de tentativa de ruptura de prova de que uma ruptura está em andamento. Até o momento, não há evidência pública suficiente para afirmar que exista um golpe de Estado em curso articulado entre Estados Unidos e setores do bolsonarismo.

Mas há razões suficientes para que as instituições monitorem possíveis interferências estrangeiras e nacionais.

O fator Trump-Bolsonarismo

A aproximação ideológica entre setores do bolsonarismo e o trumpismo acrescenta uma dimensão particularmente delicada ao cenário.

O debate deixa de ser apenas uma disputa entre direita e esquerda brasileiras. Ele passa a envolver interesses geopolíticos maiores, relações comerciais, influência digital, pressão diplomática e diferentes projetos para a inserção internacional do Brasil.

Reportagens recentes têm discutido justamente a possibilidade de uma influência do governo Trump sobre a eleição brasileira e sua aproximação com setores ligados à família Bolsonaro.

Isso não autoriza ninguém a concluir que todo bolsonarista esteja subordinado a Washington. Tampouco significa que todo apoio político internacional seja ilegal.

O limite democrático é outro: um brasileiro pode defender qualquer candidato; uma potência estrangeira não pode substituir a vontade soberana do eleitor brasileiro.

Estamos preparados?

Essa talvez seja a pergunta mais importante deste editorial.

Estamos preparados para enfrentar uma campanha massiva de desinformação?

Estamos preparados para identificar financiamento estrangeiro ilegal?

Estamos preparados para ataques digitais contra instituições brasileiras?

Estamos preparados para uma tentativa de questionamento do resultado eleitoral?

Estamos preparados para proteger autoridades brasileiras diante de eventuais ameaças?

E, principalmente, estamos preparados para dizer a qualquer potência estrangeira — seja ela qual for — que o Brasil não é quintal de ninguém?

A resposta precisa ser construída agora.

Não significa preparar o país para uma guerra contra os Estados Unidos. Significa fortalecer as instituições brasileiras, proteger o processo eleitoral, garantir segurança às autoridades, combater campanhas de desinformação e assegurar que decisões sobre o futuro do país sejam tomadas dentro das instituições brasileiras.

O perigo maior pode estar dentro do Brasil

Há ainda uma questão que não pode ser esquecida.

Nenhuma interferência estrangeira consegue produzir uma ruptura democrática sozinha. Para que uma potência externa tenha influência decisiva, precisa encontrar aliados, estruturas, narrativas e grupos dispostos a reproduzir internamente seus interesses.

É por isso que a defesa da democracia não pode ser confundida com defesa de um partido.

Hoje pode ser Lula. Amanhã pode ser qualquer outro presidente democraticamente eleito.

O princípio precisa ser maior que a preferência política: quem vencer legitimamente as eleições deve governar. Quem perder deve respeitar o resultado.

Essa regra vale para esquerda, direita, centro, bolsonaristas, lulistas e para qualquer outra corrente política.

A soberania não pode depender do resultado eleitoral

O Brasil precisa olhar para o mundo com maturidade.

Os Estados Unidos são uma potência mundial e um importante parceiro comercial, mas parceria não significa submissão.

O Brasil tem interesses próprios, relações com diferentes países e uma Constituição que estabelece a independência nacional, a autodeterminação dos povos e a não intervenção como princípios das relações internacionais.

Portanto, diante da retomada de uma linguagem associada à hegemonia norte-americana sobre o continente, a resposta brasileira não deveria ser medo.

Deveria ser soberania.

Se Lula vencer, deverá tomar posse.

Se outro candidato vencer, deverá tomar posse.

E se qualquer força — brasileira ou estrangeira — tentar impedir a vontade expressa nas urnas, o Estado brasileiro deverá responder dentro da Constituição.

A democracia brasileira não pode terceirizar sua defesa para Washington, Pequim, Moscou ou qualquer outra capital.

O Brasil precisa estar preparado para defender a própria democracia.

Porque o maior risco não é simplesmente um país estrangeiro querer influenciar o Brasil.

O maior risco é o Brasil deixar de acreditar que tem o direito de decidir seu próprio destino.

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