Flávio Bolsonaro negociou emenda de R$ 200 mil com condenado no caso Marielle, aponta investigação
Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram tratativas com Robson Calixto, o “Peixe”, antes da liberação de R$ 199.999,79 para projeto esportivo; TCU identificou indícios de irregularidades na aplicação dos recursos
Uma investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) identificou conversas entre uma assessora do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, condenado por envolvimento no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Os diálogos tratavam da liberação de recursos de emenda parlamentar destinada pelo senador.
Segundo mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular de Calixto, as tratativas ocorreram em 2023 com Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar do gabinete de Flávio. Em 6 de novembro daquele ano, Peixe cobrou recursos para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop). Em 29 de novembro, a instituição recebeu R$ 199.999,79 de uma emenda de autoria do senador.
O dinheiro passou pelo Ministério do Esporte e foi destinado ao projeto “Jogadores do Futuro”, desenvolvido na Taquara, Zona Oeste do Rio de Janeiro. A emenda que contemplou o instituto fazia parte de uma destinação parlamentar de valor global de R$ 599.128.
TCU apontou indícios de irregularidades
Um relatório técnico do Tribunal de Contas da União analisou a utilização dos recursos e apontou irregularidades nas contratações realizadas pelo Ifop. Entre os casos identificados está a contratação, para coordenar o projeto esportivo, de um escritório de advocacia pertencente ao próprio presidente da entidade. O relatório apontou conflito de interesses e problemas na pesquisa de preços. O Ifop contestou as conclusões e afirmou que a contratação de pessoal próprio é permitida pelas regras aplicáveis às organizações da sociedade civil.
A investigação também encontrou mensagens posteriores nas quais a assessora pediu a Peixe quatro ingressos para um camarote no desfile das campeãs do Carnaval de 2024. O relatório policial classificou o pedido como solicitação de “vantagem indevida”. As mensagens mostram que Peixe buscou os ingressos e posteriormente agradeceu a outro interlocutor pela entrega de quatro entradas, mas não registram a entrega diretamente à assessora.
O episódio integra uma investigação mais ampla sobre a destinação de emendas parlamentares a organizações relacionadas ao grupo político dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão. Reportagens sobre o inquérito informam que a apuração ocorre no âmbito da Operação Emendatio, autorizada pelo STF.
Flávio diz que repasse foi legal
A assessoria de Flávio Bolsonaro afirma que a emenda foi destinada dentro da legislação e seguindo critérios técnicos do Ministério do Esporte. O senador sustenta ainda que cabe à entidade beneficiada executar corretamente os recursos e aos órgãos de fiscalização verificar eventuais irregularidades.
Os elementos divulgados fazem parte de investigação em andamento. A destinação da emenda e as conversas da assessora com Peixe, por si sós, não estabelecem que Flávio Bolsonaro tenha participado de eventual desvio dos recursos.



