Crônicas de Domingo

Trump corta financiamento da mídia pública e empurra rádios locais ao colapso — manual clássico do “Como as Democracias Morrem”

Ordem executiva e rescindências aprovadas no Congresso desmontam a espinha dorsal do sistema público de comunicação dos EUA; centenas de estações já anunciam demissões e risco de fechar, enquanto a Casa Branca acusa NPR e PBS de “viés progressista”

Num movimento sem precedentes na história recente dos Estados Unidos, a administração Donald Trump assinou, em 1º de maio de 2025, a ordem executiva “Ending Taxpayer Subsidization of Biased Media” e, semanas depois, consolidou no Congresso um pacote de rescindências que elimina US$ 1,1 bilhão da verba da Corporation for Public Broadcasting (CPB) — o fundo que há quase seis décadas sustenta a rede de rádios e TVs públicas do país. A própria Casa Branca resumiu o objetivo: mandar a CPB cessar repasses à NPR (rádio pública) e à PBS (TV pública) por suposto “viés partidário” e “propaganda woke”. 

A reação foi imediata: a CPB anunciou que iniciará seu encerramento operacional, com cortes da maior parte do quadro até 30 de setembro de 2025 e um time de transição até janeiro de 2026. O impacto recai sobre mais de 1.500 estações locais (rádio e TV) que dependiam, sobretudo em áreas rurais, da parcela federal para manter jornalismo local, educação e alertas de emergência. 

Embora a narrativa presidencial acuse NPR e PBS de “radicais” e “parciais”, dirigentes das redes e da CPB classificaram a medida como “ilegal e sem base”, lembrando que a CPB é uma entidade privada criada pelo Congresso justamente para blindar o sistema de ingerência política direta do Executivo. A imprensa americana registra uma sequência de ações judiciais e planos de contingência para tentar manter parte da programação no ar. 

Fechamentos: o que já se sabe (e o que não se pode afirmar)

Até aqui, não há confirmação documentada de que “mais de 500 rádios públicas” tenham sido efetivamente fechadas desde janeiro de 2025. O que existe é um cenário de alto risco: relatórios e reportagens apontam dezenas de estações vulneráveis ao fechamento, demissões em massa (como os 15% de cortes na PBS) e gestores locais correndo atrás de doações emergenciais para evitar o apagão. Em julho, a NPR anunciou um plano de alívio para 79 rádios consideradas mais expostas; em agosto e setembro, veículos como WSJ, LA Times e The Guardian relataram a desativação da CPB e o efeito dominó sobre centenas de afiliadas. 

Em resumo: há estações já reduzindo operações e algumas podem fechar, mas a cifra de “500 rádios encerradas” não aparece confirmada nas fontes públicas mais confiáveis até a data de hoje. O que está comprovado é a destruição do mecanismo federal que as mantinha vivas — e isso, por si, coloca centenas na rota do colapso. 

Nota importante: o termo “BBS” usado em algumas redes é provavelmente um erro para PBS (Public Broadcasting Service), a rede de TV pública norte-americana. Não há “BBS” na estrutura da mídia pública dos EUA.

No livro Como as Democracias Morrem, os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt descrevem um roteiro de erosão democrática em “pequenos passos”, no qual líderes eleitos minam árbitros independentes, demonizam a oposição e distorcem o campo informacional — frequentemente dentro da lei, mas contra o espírito das normas de tolerância mútua e autocontenção institucional.

Aplicado ao caso americano atual, o desmonte da CPB e a campanha presidencial que rotula NPR/PBS de “inimigos parciais” se encaixam em dois capítulos centrais do livro:

  1. Ataque aos árbitros: ao asfixiar financeiramente uma infraestrutura que sustenta jornalismo local e educativo — especialmente em desertos de notícia —, o governo enfraquece um contrapeso da esfera pública. É uma forma de “hardball constitucional”: legal no texto, destrutiva no efeito.  
  2. Deslegitimação do opositor e da imprensa: a retórica oficial que pinta mídia pública como “progressista”, “woke” e “contra o governo” corroi a confiança em instituições informativas e divide o ecossistema entre “amigos” e “inimigos”, lógica típica dos casos clássicos analisados pelos autores.  

O que está em jogo?

  • Informação local e alertas de emergência: muitas rádios públicas transmitem avisos climáticos e de segurança onde a internet é precária. Sem CPB, comunidades rurais e indígenas ficam mais expostas a apagões informacionais.  
  • Pluralidade e independência editorial: ao estrangular um polo de mídia não-comercial — financiado por um mix de recursos federais, filantropia e doações de ouvintes —, o sistema migra ainda mais para oligopólios privados e desertos de notícia.  
  • Precedente institucional: a ideia de que um presidente pode “desligar” o financiamento de veículos que critica abre uma avenida para escaladas futuras. É exatamente o tipo de erosão incremental que Levitsky e Ziblatt alertam: matar a democracia por dentro, aos poucos.  

Não é preciso aceitar a avaliação ideológica do governo sobre NPR e PBS para reconhecer o efeito prático de sua cruzada: desmontar o arranjo federal que segurava centenas de estações públicas, especialmente fora dos grandes centros. Isso estreita o espaço de debate informado, empobrece a fiscalização do poder e aproxima os EUA do roteiro descrito em Como as Democracias Morrem: intimidar árbitros, manipular regras e reduzir a pluralidade, tudo em nome de uma “neutralidade” definida pelo governante de turno. 

Até 16 de setembro de 2025, não há evidência sólida de que “mais de 500 rádios públicas” já tenham sido fechadas; há, sim, centenas de estações impactadas, dezenas vulneráveis ao fechamento e demissões em série. Seguiremos monitorando. 

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