No Nome Dele, Mas Não por Ele
Entre dízimos, votos e promessas de riqueza, um Brasil moldado à imagem do altar.

Era domingo, e o culto já começava antes mesmo do café. Nas rádios, nos outdoors e nos programas de televisão, pastores vestindo ternos impecáveis prometiam milagres em 12 vezes no cartão. “Deus quer te ver rico”, diziam. “Mas antes, seja fiel no pouco… aqui no envelope.”
O Evangelho, esse anúncio revolucionário dos pobres, virou empresa — e das grandes. De dentro dos templos lotados, construíram-se impérios. Não mais feitos de fé, mas de marketing, influência e alianças com o poder. O púlpito virou palco. O altar, balcão de negócios. A Bíblia, panfleto político.
Vi uma postagem no Instagram que resumia tudo aquilo que já pairava no ar: sete características do tal cristofascismo. O nome é forte, mas mais forte ainda é o que ele descreve.
A fé virou ferramenta de dominação. Intolerância disfarçada de zelo. Nacionalismo travestido de santidade. Moralismo seletivo, enquanto líderes milionários vivem vidas que nem Salomão ousaria imaginar.
O que não cabe nesse molde, é inimigo de Deus. Ou do país. Ou dos dois.
E o Brasil, aos poucos, foi sendo redesenhado:
Onde antes havia Estado laico, agora há pastor com crachá parlamentar.
Onde havia debate, agora há versículos como muros.
Onde havia solidariedade, agora há meritocracia gospel: “Se você não prospera, é porque sua fé é fraca.”
A doutrina da prosperidade transformou o sagrado em uma gincana de bênçãos. Transformou a fé em produto e os fiéis em clientes. Cada culto virou campanha. Cada dízimo, investimento. Cada voto, moeda de troca.
Cristo, o carpinteiro que andava com os rejeitados, que expulsou os vendilhões do templo, hoje seria expulso de muitos templos modernos. Diriam que Ele atrapalha os negócios. Que não é “estrategicamente alinhado”. Que falta a Ele um plano de marketing.
Mas talvez ainda reste uma esperança — nos becos, nos terreiros esquecidos, nas comunidades que oram de verdade, nas mãos que ajudam sem câmera, sem QR Code, sem ambição.
Porque o Reino de Deus, aquele verdadeiro, nunca foi sobre enriquecer.
Foi sempre sobre repartir.
E isso, hoje, parece escandalosamente subversivo.
@cezinhamarques – jornalista



