Crônicas de Domingo

O Trem Azul de Lô Borges

Um tributo ao legado poético e sonhador de Lô Borges, cuja música — especialmente Trem Azul — segue inspirando gerações a transformar o caminho em destino e a vida em viagem.

A notícia da morte de Lô Borges chegou como uma freada brusca no meio de uma paisagem em movimento. Um silêncio repentino, desses que ficam suspensos no ar, feito o eco de um acorde que não quer se desfazer. A gente sabia que um dia o trem pararia na última estação, mas ninguém estava pronto pra descer.

Lô sempre foi trilho, não destino. Foi o menino do Clube da Esquina que colocou o coração na estrada e nos ensinou que a vida pode ser melodia, que os sonhos também têm acordes. Suas canções — leves como brisa mineira, profundas como o horizonte de uma montanha — atravessaram gerações e paisagens, levando no vagão um Brasil que sonhava, amava e buscava sentido no som das guitarras e dos violões.

Quando ouço Trem Azul, é como se uma janela se abrisse dentro de mim. “Nada será como antes, amanhã”, dizia Milton, e Lô parecia concordar, sussurrando que o amanhã era o próprio caminho. Foi essa música que me ensinou a viajar sem pressa, a transformar o asfalto em poesia e a estrada em casa. Viajar — física ou espiritualmente — virou um modo de vida, uma forma de continuar o movimento do trem que ele colocou nos trilhos.

A herança que Lô Borges nos deixa não cabe em discos, partituras ou prateleiras. Está na coragem de quem sonha com liberdade, no gesto simples de quem pega a estrada sem saber onde vai dar, no olhar curioso de quem vê beleza até nas curvas mais solitárias do caminho. Ele nos deixou a chave de um vagão que nunca para de seguir: a música.

E é bonito pensar que, em algum lugar do tempo, o Trem Azul continua rodando — agora com Lô na cabine, acenando da janela, enquanto o resto de nós segue ouvindo ao longe o som doce e eterno do motor da alma.

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