Tragédia não é palanque: exploração política da violência ignora a dor de quem perdeu uma vida
Uso político da morte de uma jovem no Imbuí expõe uma velha estratégia eleitoral: transformar uma tragédia humana em argumento de campanha, como se a violência fosse um problema exclusivo da Bahia e existisse uma fórmula simples para eliminá-la

A morte de uma jovem vítima de latrocínio na madrugada deste domingo, no Imbuí, em Salvador, deveria impor, antes de qualquer disputa eleitoral, respeito à vítima e solidariedade aos familiares e amigos que enfrentam uma perda irreparável. Quando uma tragédia dessa dimensão é imediatamente incorporada ao discurso político, porém, a dor corre o risco de deixar de ser tratada como uma questão humana para se transformar em instrumento de campanha.
Foi nesse contexto que o candidato da oposição ao Governo da Bahia, ACM Neto, voltou a direcionar críticas à segurança pública estadual. O questionamento das políticas de segurança é legítimo e faz parte do debate democrático. Outra coisa é utilizar um crime específico e uma vítima concreta para sugerir ao eleitor que a violência poderia ser resolvida simplesmente pela substituição de quem ocupa o governo.
Não existe fórmula mágica para acabar com a violência. Tampouco ela é uma exclusividade da Bahia. Crimes violentos desafiam governos e sociedades em diferentes estados brasileiros e também estão presentes, em graus e características distintos, em países da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa. Isso não diminui a responsabilidade das autoridades baianas nem pode servir de justificativa para resultados insatisfatórios. Apenas demonstra que reduzir um fenômeno complexo a uma peça de disputa eleitoral é uma simplificação conveniente.
É justamente aí que o discurso de ACM Neto merece ser confrontado. Antônio Carlos Magalhães Neto pode — e deve — apresentar propostas, apontar falhas do governo e explicar concretamente o que faria diferente. Mas apresentar-se politicamente diante de uma tragédia como se houvesse uma solução imediata para um problema que atravessa sociedades, governos e gerações aproxima o debate mais do proselitismo eleitoral do que da construção de uma política pública séria.
Segurança pública exige polícia equipada, inteligência, investigação, prevenção, educação, políticas sociais, sistema de Justiça eficiente, combate ao crime organizado e capacidade de enfrentar as causas e consequências da violência. Nenhum candidato, seja de direita ou de esquerda, possui sozinho uma fórmula capaz de impedir todo homicídio, roubo ou latrocínio. Quem promete implicitamente essa segurança absoluta oferece ao eleitor uma resposta que a realidade não sustenta.
A discussão é ainda mais profunda. O mundo contemporâneo parece cada vez mais disposto a dividir todos os acontecimentos entre direita e esquerda, vencedores e derrotados, bons e maus. Mas a violência humana é muito anterior às atuais divisões ideológicas. Ela atravessou diferentes épocas, sistemas políticos, religiões, culturas e modelos econômicos.
O problema, portanto, não pode ser reduzido apenas à sociedade, a um partido ou a determinado governo. Existe também uma dimensão humana na violência: intolerância, ganância, ódio, crueldade e desprezo pela vida não nasceram nas eleições de 2026. Existem desde muito antes delas. Cabe ao Estado enfrentá-los com políticas públicas e às instituições reduzir as condições que favorecem o crime, mas nenhuma eleição transforma, por decreto, a própria natureza humana.
Isso não significa retirar do Governo da Bahia sua responsabilidade pela segurança dos cidadãos. Pelo contrário: resultados precisam ser cobrados, políticas devem ser avaliadas e erros precisam ser corrigidos. O que não se pode aceitar é que a morte de uma jovem seja reduzida a combustível eleitoral.
Antes de existir uma disputa entre governo e oposição, existe uma família que perdeu alguém. Existem amigos tentando compreender uma morte brutal. Existe uma vítima cuja história não deveria ser convertida em peça de propaganda.
A Bahia precisa discutir segurança pública — e precisa fazê-lo profundamente. Mas esse debate merece propostas, números, planejamento e responsabilidade. Não a exploração da dor de uma família para conquistar votos.



