Economia

Exportações do Brasil disparam para a Argentina em 2025 e expõem contradições da abertura econômica do país vizinho

Vendas brasileiras cresceram 55,4% no primeiro semestre e somaram US$ 9,1 bilhões, com destaque para carros, autopeças e até carne bovina; política de Milei acelera importações e preocupa pequenas indústrias argentinas

As exportações do Brasil para a Argentina deram um salto expresPDivulgaçsivo no primeiro semestre de 2025, crescendo 55,4% em relação ao mesmo período do ano passado e totalizando US$ 9,1 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), com parte das informações compiladas pela Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes).

Entre os produtos mais vendidos pelos brasileiros estão veículos de passageiros (21,6%), autopeças e acessórios (9,7%) e veículos de carga (6,4%). Uma surpresa foi o avanço das exportações de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada, que passaram de cerca de US$ 1 milhão para US$ 22,9 milhões no mesmo período — ainda que representem apenas 0,25% da pauta exportadora brasileira para o país vizinho.

A valorização do peso argentino, a queda da inflação e o programa de abertura comercial do governo de Javier Milei — com redução de tarifas, fim de controles e incentivos às importações — impulsionaram a entrada de produtos estrangeiros no mercado local. Um levantamento da consultoria Argendata mostra que, só no primeiro trimestre, as importações argentinas representaram 32% do PIB, maior índice em 135 anos.

Essa reviravolta no comércio bilateral ocorre mesmo com as relações entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei ainda distantes. No mesmo período, as compras do Brasil em produtos argentinos somaram US$ 6,2 bilhões, com alta modesta de 1,6%, gerando um superávit de US$ 3 bilhões a favor dos brasileiros.

Apesar do alívio nos preços ao consumidor argentino — que já encontra carne brasileira mais barata que a local em regiões como a Patagônia — o movimento tem efeitos colaterais preocupantes. Pequenas e médias empresas argentinas, especialmente nos setores têxtil, metalúrgico e de eletrodomésticos, vêm enfrentando forte perda de competitividade frente aos produtos importados. Segundo a IPA (associação de PMEs), mais de 11% das empresas exportadoras deixaram de vender ao exterior e 41,3% das PMEs relataram queda nas vendas internas.

O economista Santiago Bulat, da IAE Business School e da Invecq Consultoria, aponta que o salto nas importações também reflete uma recuperação do consumo após o colapso de 2024. Ele alerta, porém, que sem uma reforma tributária consistente, a competitividade local continuará comprometida: “A carga de impostos, principalmente provinciais, prejudica os produtos feitos na Argentina”.

Com o comércio exterior em expansão, mas a indústria nacional em retração, a Argentina vive o paradoxo de ser “o país do churrasco que agora importa carne do Brasil”, como ironizou um apresentador do canal Crónica. Uma cena impensável há poucos anos — e que diz muito sobre as transformações em curso.

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