BRICS, Crise Política e Interferência Externa: O Tabuleiro Geopolítico por Trás da Família Bolsonaro
Entre a disputa pela hegemonia global e a ascensão do BRICS, cresce a leitura de que a crise brasileira é usada como pretexto para intervenção estrangeira e pressão sobre o Judiciário

O fortalecimento do BRICS e a consequente perda de influência dos Estados Unidos no cenário global ocorrem em paralelo a uma crise política no Brasil que, para muitos analistas e atores políticos, vai muito além de um embate ideológico interno. O bloco — agora ampliado com Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia — concentra mais da metade da população mundial e cerca de 40% da economia global. Na última cúpula realizada em território brasileiro, os líderes reforçaram a pauta de reformas em organismos internacionais, a regulação de inteligência artificial e a ampliação do comércio em moedas locais, medidas que reduzem a dependência do dólar e desafiam diretamente a hegemonia americana.
Nesse cenário, a tensão entre Washington e o BRICS se intensifica. O governo de Donald Trump, assumindo um tom abertamente hostil, ameaçou tarifas de até 10% contra países do bloco, classificando-o como “anti-americano”. A reação brasileira foi imediata, reafirmando que tais medidas apenas aceleram a busca por novos mercados e parceiros estratégicos fora da órbita dos EUA. Mas, por trás das sanções comerciais e da retórica política, há quem enxergue uma movimentação mais profunda — uma tentativa de conter o avanço do BRICS por meio da instabilidade interna em países-chave, como o Brasil.
É nesse ponto que a crise política brasileira, centrada na figura de Jair Bolsonaro e na tentativa de golpe de 2023, se encaixa no tabuleiro global. Para setores críticos à política externa norte-americana, a narrativa construída em torno da família Bolsonaro serve de catalisador para ações indiretas de Washington, incluindo pressões veladas sobre o Judiciário brasileiro. As investigações, decisões e medidas judiciais contra o ex-presidente e seus aliados, embora fundamentadas em fatos e respaldadas pela lei, passaram a ser interpretadas por alguns como um campo de disputa onde interesses geopolíticos se misturam à justiça doméstica.
A suposta interferência não se limitaria à opinião pública internacional. Relatos indicam que diplomatas e agentes ligados ao governo americano têm buscado interlocução com autoridades brasileiras em meio à crise institucional, usando a defesa da “democracia” como justificativa para manter influência sobre processos internos. Essa postura, segundo críticos, se encaixa no histórico de intervenções indiretas que marcam a política externa dos EUA na América Latina, especialmente quando interesses econômicos e estratégicos estão em jogo.
Enquanto isso, surgem especulações sobre a possível entrada de países como México e Canadá no BRICS, o que, se confirmado, ampliaria o alcance político e econômico do bloco. Para Washington, tal avanço representaria um golpe ainda mais profundo em sua capacidade de ditar as regras do comércio global. Para o Brasil, significaria reforçar seu papel de protagonista num cenário multipolar — algo que, justamente por isso, desperta resistências no campo ocidental.
O fato concreto é que o BRICS avança e os EUA reagem. No meio desse embate global, a crise política brasileira deixa de ser apenas uma disputa doméstica e passa a ser parte de um jogo geopolítico maior. A pergunta que fica é se o Brasil terá fôlego e autonomia para conduzir seus interesses soberanos num cenário em que a pressão internacional e a guerra de narrativas não dão sinais de recuo.

@cezinha Marques – Jornalista premiado três vezes com o prêmio Jânio Lopo de jornalismo. É cronista do site Bahiapress e curador de um canal no YouTube: Next Trip – @jornalistanakombi
É fotógrafo, mergulhador, poeta e nas horas vagas viaja pelo mundo.



