Crônicas de Domingo

O centímetro que ninguém tira

Uma viagem nostálgica ao basquete de raiz que moldou gerações e consagrou Oscar Schmidt

Eu tenho um metro e sessenta e um.

E ninguém ouse me roubar esse centímetro.

Pode parecer pouco — e é. Mas foi com ele que eu medi o mundo durante muito tempo. Principalmente quando esse mundo cabia dentro de uma quadra de basquete.

Não era o basquete de hoje, esse espetáculo global da NBA, cheio de luz, câmera e roteiro quase pronto. O meu basquete era outro. Tinha cheiro de madeira encerada, eco de bola quicando em ginásio e um certo silêncio respeitoso antes do arremesso.

Era o tempo em que a gente acreditava mais fácil.

Eu era menino quando vi, na Associação Atlética da Bahia, um jogo que nunca mais saiu de mim. O Flamengo enfrentava um combinado local — ou algo assim. Pouco importa. O que importa é que, naquela noite, eu descobri que existiam gigantes.

Eles não eram apenas altos. Eram desproporcionais à realidade. Mãos que pareciam capazes de segurar o mundo, passos que cruzavam a quadra como se o chão ajudasse. E, de repente, um deles subiu — subiu como quem desafia a gravidade — e, ao se pendurar no aro, fez a tabela ceder.

Naquele instante, não foi a tabela que quebrou. Foi a minha noção de limite.

Depois disso, o basquete deixou de ser um jogo. Virou linguagem.

E, como toda linguagem, teve seu poeta maior.
Oscar Schmidt.

Não era só pelos pontos — embora fossem muitos. Era pela maneira. Pela naturalidade com que transformava um gesto técnico em algo próximo da arte. Ele não arremessava: ele declarava intenções.

Enquanto o mundo olhava para Magic Johnson e Larry Bird, nós sabíamos que havia um brasileiro capaz de sentar à mesma mesa — sem pedir licença.

E talvez o mais impressionante: ele fez isso sem trocar a essência pelo brilho fácil. Num tempo em que a NBA já era tentação, ele escolheu ficar. Escolheu o Brasil. Escolheu aquilo que hoje parece raro: coerência.

Eu cresci. Continuei com um metro e sessenta e um — nem mais, nem menos. Mas aprendi que altura nunca foi só medida. Era perspectiva.

Hoje, quando olho ao redor, sinto falta de alguma coisa que não sei nomear direito. Talvez seja essa capacidade de admirar sem desconfiança. Talvez seja a existência de ídolos que não precisem explicar quem são a cada semana.

Não é sobre dizer que o passado era melhor. É sobre reconhecer que ele nos deixou referências que ainda fazem falta.

Porque há uma diferença entre ser famoso e ser necessário.

E alguns nomes atravessam o tempo não porque aparecem muito, mas porque permanecem.
Oscar Schmidt é um desses.

No fim das contas, eu continuo aqui, com meu metro e sessenta e um, assistindo ao mundo crescer para todos os lados. Mas com a certeza de que, dentro de mim, ainda cabe aquela quadra, aquele aro, aquela tabela — e aquele instante em que eu descobri que o impossível, às vezes, só precisa de um bom salto.

E de alguém que acredite nele.

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