Politica

EDITORIAL | ACM Neto perde o primeiro debate ao trocar propostas por ataques

Sem apresentar um projeto convincente para a Bahia, candidato do União Brasil apostou no confronto, elevou o tom contra adversários e jornalista e deixou escapar uma oportunidade importante de explicar aos eleitores o que pretende fazer pelo estado.

O primeiro debate entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o candidato ACM Neto (União Brasil), realizado pela Band neste domingo (9), deixou uma impressão difícil de ignorar: ACM Neto saiu menor do que entrou.

Em um momento em que o eleitor baiano deveria estar conhecendo propostas, prioridades e soluções concretas para os problemas do estado, o que prevaleceu na participação do candidato oposicionista foi o confronto. Em vez de apresentar um programa consistente para a Bahia, Neto preferiu investir em ataques, acusações e respostas agressivas.

O problema não está em fazer oposição. Faz parte da democracia cobrar, fiscalizar e apontar erros de um governo. O problema surge quando a crítica substitui a proposta e quando o discurso político se transforma em uma sucessão de acusações que pouco esclarecem o eleitor sobre o futuro.

Um debate que precisava falar da Bahia

A Bahia enfrenta desafios importantes em áreas como segurança pública, saúde, educação, mobilidade, infraestrutura, geração de emprego e desenvolvimento regional. Um debate entre candidatos ao Governo do Estado deveria ser, sobretudo, uma oportunidade para responder a perguntas simples: o que será feito, quanto custará, de onde virão os recursos e quais serão as prioridades?

Foi justamente nesse ponto que ACM Neto, na avaliação deste editorial, deixou a desejar.

O candidato passou boa parte do confronto tentando desconstruir a imagem de Jerônimo Rodrigues, mas não conseguiu transformar suas críticas em uma apresentação clara de um projeto alternativo de governo.

A oposição precisa dizer ao eleitor não apenas o que está errado, mas principalmente como pretende fazer diferente.

A agressividade não substitui argumento

Outro aspecto que chamou atenção foi o tom adotado por ACM Neto durante o debate.

O confronto político pode ser duro, mas existe uma diferença entre firmeza e agressividade. Quando o candidato eleva excessivamente o tom e parte para ataques pessoais, perde-se a oportunidade de discutir aquilo que realmente interessa à população.

A postura diante da jornalista que mediava o debate também merece reflexão. Jornalista não é adversário eleitoral. Questionamentos incômodos fazem parte de qualquer debate democrático e devem ser respondidos com argumentos, não com hostilidade.

Da mesma maneira, ataques pessoais contra adversários não podem ocupar o espaço que deveria ser destinado à apresentação de propostas.

O episódio envolvendo a inteligência artificial

A postura de ACM Neto diante das informações sobre o uso de inteligência artificial em seu programa de governo também merece ser lembrada.

O candidato classificou como “mentira” a reportagem que apontou indícios de utilização de IA no documento e criticou a jornalista responsável pela publicação.

É legítimo contestar uma reportagem. O que se espera de um candidato, porém, é que apresente elementos concretos para contestar a informação.

Se a análise técnica estiver errada, que sejam apresentados estudos, documentos ou uma perícia independente capaz de demonstrar o erro. Se existem dúvidas sobre a metodologia utilizada, que elas sejam explicadas publicamente.

Atacar o jornalista não responde à pergunta central: quem produziu o programa de governo e como ele foi elaborado?

Jerônimo também precisa ser cobrado

Isso não significa transformar Jerônimo Rodrigues em vencedor absoluto ou deixar de cobrar o atual governador.

O governador tem quatro anos de gestão para prestar contas. Obras, investimentos, segurança pública, saúde, educação, transporte e execução orçamentária precisam ser avaliados com rigor.

Um debate eleitoral não pode ser tratado como torcida organizada. Jerônimo deve ser cobrado pelo que fez, pelo que não fez e pelo que promete fazer caso seja reeleito.

Mas há uma diferença importante: quem ocupa o governo precisa prestar contas; quem pretende substituí-lo precisa apresentar uma alternativa.

E foi justamente essa alternativa que ficou pouco clara na participação de ACM Neto.

O eleitor merece mais

O primeiro debate deveria ter servido para colocar frente a frente dois projetos para a Bahia. No entanto, ACM Neto parece ter escolhido outro caminho: transformar o confronto em uma disputa pessoal.

Ao final, fica a sensação de que o candidato desperdiçou uma oportunidade preciosa de falar diretamente com milhões de baianos.

O eleitor não quer apenas saber quem o candidato considera culpado pelos problemas. Quer saber como ele pretende resolvê-los.

Se a estratégia de ACM Neto continuar baseada em ataques, desqualificação de adversários e confronto com jornalistas, a oposição corre o risco de perder justamente aquilo que mais precisa conquistar: a confiança de quem ainda está indeciso.

Neste primeiro debate, portanto, a derrota de ACM Neto não está apenas no desempenho diante das câmeras. Está na incapacidade de transformar sua crítica ao governo em uma proposta clara de futuro para a Bahia.

E, em uma eleição para governador, quem não consegue explicar para onde pretende levar o estado dificilmente convence o eleitor a entregar-lhe o volante.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Abrir bate-papo
Olá
Podemos ajudá-lo?