Crônicas de Domingo

O incômodo da ascensão: o que alimenta o ódio ao PT no Brasil

Entre privilégios ameaçados, disputa por status e a influência das igrejas neopentecostais, a rejeição ao Partido dos Trabalhadores revela mais sobre desigualdade social do que sobre política

Não foi de repente. Não nasceu num escândalo específico, nem em uma manchete isolada. O ódio — esse que se apresenta como opinião firme, como “preocupação com o país”, como defesa da moral — foi sendo cultivado aos poucos, como quem rega uma planta que cresce silenciosa no quintal das certezas.

Durante muito tempo, o Brasil foi organizado como uma casa grande ampliada. Cada um no seu lugar. O elevador social existia, mas era lento, quase simbólico. E, sobretudo, silencioso. Subia um ou outro — desde que não incomodasse demais.

Então algo mudou.

O filho da empregada começou a dividir a sala de aula com o filho do patrão. O aeroporto deixou de ser território exclusivo. O shopping ficou mais cheio, mais barulhento, mais diverso. O pobre deixou de ser apenas paisagem e passou a ocupar espaço. E isso, mais do que qualquer gráfico econômico, gerou um desconforto profundo.

Porque não era só sobre renda. Era sobre fronteira.

A elite — e boa parte da classe média que sonha em ser elite — não estava preparada para dividir. Dividir o espaço, o acesso, o símbolo. O incômodo não era com o ganho do outro em si, mas com a perda da exclusividade. O privilégio, quando questionado, costuma reagir como se fosse injustiçado.

E aí, como todo sentimento difícil de admitir, esse incômodo precisou de um disfarce. Vestiu-se de indignação moral. De combate à corrupção. De defesa dos “valores”. Tornou-se discurso palatável.

Mas o que não se dizia — e ainda não se diz — é que há algo profundamente perturbador em ver a estrutura social se mover.

Nesse cenário, outro ator entrou em cena com força: as igrejas neopentecostais. Com uma linguagem acessível, emocional e direta, elas ocuparam territórios onde o Estado sempre chegou tarde ou nunca chegou. Falaram com quem sempre foi ignorado. Deram pertencimento, identidade, resposta.

Mas também ofereceram interpretação.

Uma leitura de mundo onde o sucesso é sinal de mérito divino, e a pobreza, muitas vezes, uma prova de fé — ou até consequência espiritual. Onde políticas sociais podem ser vistas como distorção da ordem natural das coisas. Onde a ascensão coletiva perde espaço para a lógica individual da prosperidade.

Assim, o pobre que ascende pela política pública passa a ser visto com desconfiança — até por quem compartilha da mesma origem. E o ressentimento que poderia ser direcionado à desigualdade estrutural é redirecionado. Canalizado. Reprogramado.

O resultado é uma inversão curiosa: gente que sempre teve pouco passa a rejeitar aquilo que poderia ampliar suas possibilidades. E gente que sempre teve muito passa a defender essa rejeição como se fosse um valor moral.

No fim, talvez a pergunta não seja apenas “de onde vem o ódio ao PT”.

Mas o que esse ódio revela.

Porque, às vezes, ele não fala de partidos. Nem de ideologias. Nem mesmo de governos.

Ele fala de um país que ainda não aprendeu a se ver como coletivo.
De uma sociedade que se incomoda menos com a desigualdade do que com a sua redução.
E de pessoas que não suportam dividir o que, por tanto tempo, acreditaram ser só delas.

Talvez o problema nunca tenha sido o outro subir.

Talvez tenha sido a ideia de que ele não deveria subir junto.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Abrir bate-papo
Olá
Podemos ajudá-lo?