WSL: Ítalo vence voando em Newcastle e assume a liderança do ranking

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A Liga Mundial de Surfe se esforçou para realizar e realizou com sucesso o segundo evento da elite do surfe mundial da temporada. Ver a competição rolando em Merewether com a praia cheia de pessoas, todas sem máscara, nos faz lembrar o quanto éramos felizes e não sabíamos. A Austrália é um país que soube controlar a pandemia e desde dezembro não registra nenhuma morte por Covid 19, por isso, a WSL está realizando lá uma perna australiana com quatro etapas, já que, embora estejam programados dez eventos, não teremos garantia que eles acontecerão, Brasil e África são potenciais candidatos a não acontecer, por motivos óbvios.

A perna australiana é um fator quase decisivo para definir os cinco surfistas que disputarão o WSL Finals, ela pode representar mais da metade do circuito caso alguma etapa não aconteça, por isso, não ir bem lá não é uma opção para quem almeja o título, mas isso não parece ser uma preocupação para os brasileiros, que ignoram qualquer pressão e estão em um nível absurdamente superior aos gringos, com a exceção é claro de John John.

Por falar no campeão da primeira etapa da temporada, o havaiano foi a primeira grande surpresa da competição, perdendo precocemente para a segunda maior surpresa, o rookie Morgan Cibilic, o local hero, mesmo sendo ainda muito cru em competições na elite, afinal essa foi apenas sua segunda etapa entre os melhores do mundo, competiu com a leveza de um veterano. Mesmo com John John competindo de maneira agressiva marcando o novato até sem posse da prioridade, Morgam deu um nó no champ indo sempre nas melhores, o que resultou na maior soma do dia, 17.13. A tranquilidade do garoto parece ter causado um certo desconforto em John John, no meio da bateria em diante ele começou a errar de maneira excessiva, algo pouco habitual no surfe do bicampeão, o tempo passou, a buzina tocou e Morgan enfim sacramentou o esquartejamento do havaiano, imputando a primeira zebra da competição, eliminando o havaiano no round dos 32, o guri quebrou o as expectativas e o Fantasy do mundo inteiro.

 

Morgan Cibilic – Foto WSL

 

No round dos 16 bons confrontos aconteceram, Gabriel abriu o dia surfando contra seu grande amigo Frederico Morais em uma bateria morna até o minuto final, quando o brasileiro alcançou a melhor nota do confronto, um 8.50 construído com um belo surfe de linha e transições precisas, speed, power and flow na mais pura tradução, Gabriel finalizou essa onda despencando em um floater do 4º andar direto para as quartas de final.

Embora a maior pontuação do round tenha sido do brasileiro voador Ítalo Ferreira, as melhores escolhas de ondas, as melhores variações de manobras e o melhor surfe ficou por conta mais uma vez da sensação Morgan Cibilic, Morgan mostrou o melhor surfe para aqueles que assim como esse colunista são amantes do surfe de borda, o garoto anotou um 8.50 logo em sua primeira onda com apenas duas manobras, uma rasgada forte de arco longo mostrando as quilhas, linkando perfeitamente para aplicar uma manobra ainda maior, uma paulada daquelas que a onda volta para o oceano, desgarrando a rabeta e voltando em queda livre em um buraco oco, com a prancha despencando em uma queda completamente vertical, 28 dos 32 surfistas da elite embicariam, Morgan corrigiu o pouso com o pé de trás, foi cirúrgico, mostrando um alto nível técnico e certamente o melhor surfe da competição, o garoto fez ainda um backup wave de 7.50, estacionando a primeira Comb do evento na praia, para levar Carmichael direto para casa.

Como já foi dito antes, Ítalo avançou fazendo o maior somatório da rodada com um 8.60 e um 8.33, surfando duas ondas quase idênticas, enquanto todos estavam surfando na borda, ele abriu o espaço aéreo com dois aéreos de back bem similares. Depois da Comb deixar o Carmichael em casa, ela voltou para pegar o Colapinto, que embora tenha feito uma boa onda na borda, foi atropelado por uma espaçonave frenética e desgovernada pilotada por um pilhado Ítalo Ferreira.

O dia final começou e no duelo dos dois campeões mundiais Gabriel Medina acabou levando a melhor sobre Adriano de Souza, vencendo com uma pontuação bem apertada em um mar bem chatinho, o melhor momento que esse confronto proporcionou foi o bate papo dos caras após saírem da água, pareceu que eles estavam amarradões em se enfrentarem, talvez pelo fato de que aquela poderia ser a última disputa entre os dois na elite do surfe mundial, as câmeras registraram aquilo que pareceu ser uma espécie de ritual de despedida e confraternização, afinal eles nem sabem quantas etapas ainda terão até o fim do ano, más sabem o quanto um foi importante na carreira do outro.

 

Deivid Silva – Foto WSL

Ainda nas quartas, na bateria contra Deivid Silva, no intervalo comercial da transmissão que dura dois minutos, Ítalo pegou três ondas. Enquanto todos os competidores se posicionavam para a direita que permitia manobrar, ele se colocou no meio da praia, buscando as rampas para voar nas esquerdas.

Uma coisa é importante falar, e a construção dessa fala se dá através de observações pessoais que geram minha opinião particular. Ítalo vem vencendo campeonatos baseados unicamente em aéreos, foi assim em Duranbah Beach na Gold Coast e também em Portugal, duas de três etapas vencidas por ele em 2019, em Merewether ele também foi passando baterias assim. Acredito que seja importante a WSL refletir sobre esse critério de julgamento, um critério onde o aéreo como única manobra pode valer 10 pontos, com esse critério em jogo a entidade está potencializando a vitória do melhor aérialista, e esse cara não necessariamente vem a ser o melhor surfista. Há tempos atrás, na época da ASP, existiam as divertidas expressions sessions que premiavam a manobra mais radical ou mais progressiva, nessas sessões os surfistas buscavam sempre surpreender nos aéreos, eles adiantavam, adiantavam, adiantavam e voavam alto, com esse critério de julgamento onde um aéreo como única manobra pode valer mais que três grandes manobras de borda, a WSL está trazendo as expressions sessions para dentro das baterias, a pergunta é: É correto pontuar tanto um aéreo quando o mar também está para manobras? Fica aqui a reflexão.

Além disso, especificamente no caso do Ítalo, está nítido que esse critério tem colocado ele em uma zona de conforto, ele está tão focado nos aéreos, que está perdendo aquilo que ele conquistou de melhor ao longo de sua carreira. De 2017 para 2018 Ítalo corrigiu aquilo que era sua grande deficiência, surfe sem uma linha definida, no intervalo dessas temporadas ele parou de bater prancha, desapegou do surfe picado, colocando em seu cardápio um fundamento que seu surfe não tinha, linhas limpas, como consequência dessa correção de rumo, ele venceu incontestavelmente Bells 2018, Bells é uma onda que exige carvins redondos, executados em um único movimento, trocas de borda suave, fluidez na condução da prancha e expressão combinada a controle de força na execução de cada manobra, isso define um pouco do que vem a ser linhas limpas. Naquela ocasião, Ítalo fazia final com Mick Fanning que havia escolhido Bells para seu gran finale, todo o cenário convergia para uma vitória de Mick, o australiano tem uma conexão espiritual com aquela onda, ele venceu em Bells pela primeira vez em 2001, naquela época o aussie não fazia parte da elite, era um surfista convidado. Dezessete anos mais tarde e já tetracampeão em Bells, Mick não poderia ter escolhido local melhor para se despedir, todas as circunstancias davam a Mick o favoritismo naquela final, más Ítalo venceu apresentando uma linha limpa, bem definida, aproveitando bem os espaços das ondas sempre com movimentos bem sincronizados com link de manobras precisos, de lá pra cá ele se projetou como um dos surfistas mais difíceis de ser batido e alcançou o título mundial, mas, na contramão disso, os critérios que estão dando a ele grandes vitorias sustentadas em aéreos, faz com que ele tente a cada onda ser mais veloz para alcançar o maior aéreo, e essa busca da maior velocidade está quebrando e picando novamente sua linha de surfe, o que pode ser facilmente observado em Merewether.

Tudo bem que sua linha de surfe esteja sendo quebrada ao passo em que ele esteja vencendo, mas o surfe vai se resumir a aéreos como única manobra? Fica o questionamento.

Na semifinal, Gabriel executou seu primeiro aéreo da competição, talvez em virtude de observar a valorização nas manobras executadas por Ítalo, ele foi para uma esquerda e mandou um aéreo reverse quilométrico que rendeu a maior nota do ano para os surfistas homens, 9.70. Carissa Moore no dia anterior havia marcado 9.90 também em um aéreo como única manobra. Ao passar pela sensação Morgan Cibilic, Gabriel garantiu uma vitória brasileira em Newcastle, já que a segunda semifinal era entre os brasileiros Filipe Toledo e Ítalo Ferreira.

Ítalo começou a bateria contra Filipe manobrando, más voltou rapidamente para os aéreos quando ouviu um 7.50 na nota de uma onda longa que demandou energia e tempo, na onda seguinte, um aéreo, um high score e a classificação para enfrentar Gabriel Medina na grande final.

Antes de irmos para a final masculina, não podemos deixar de falar de Carissa Morre, ela enfrentou na final feminina a outra grande surpresa do evento, a australiana Isabella Nichols, que havia vencido Stephanie Gilmore e Taiana Weston-Webb nos rounds anteriores. Mas, falar de Carissa é simples, ela venceu a categoria feminina e poderia até vencer a masculina, acho que isso basta.

A grande final começou para os dois maiores goofys do tour com uma sensação de déjà-vu, assim como a final de 2019 em Pipeline, quem vencesse a bateria levaria o troféu em questão, dessa vez a lycra amarela. Embora Gabriel tenha feito a maior nota do confronto, um 8.60 apresentando três manobras grandes, ele passou 20 minutos com a prioridade esperando uma onda que valesse 4.60, e essa onda não veio, a essa altura Ítalo já havia decidido a bateria com duas ondas medianas, uma delas um aéreo que valeu 7.77, sua maior nota, embaixo da prioridade do bicampeão. Ítalo venceu mais uma bateria em confrontos diretos contra Gabriel Medina, repetindo uma cena que vem sendo comum de ver nos últimos tempos. Tem sido comum também finais com brasileiros em Newcastle, nos últimos anos Alex Ribeiro venceu Jadson Andre e Yago Dora venceu Jesse Mendes em etapas de QS, todos eles goofys.

O circuito segue para Narrabeen, com Ítalo surfando de Lycra amarela e Mick Fanning enriquecendo ainda mais a competição surfando como convidado. Dia 16. próxima sexta, para nós aqui no Brasil próxima quinta, os melhores do mundo voltam a disputar a vaga para o WSL Finals, Ítalo Ferreira é sem dúvida o nome a ser batido, nos vemos novamente lá. Aloha!

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