Profecia do Adorável Comunista

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Por Vinicius Jacob

O dia 24 de janeiro de 2018 entrou definitivamente para a história do Brasil, pois pela primeira vez um ex-presidente da república foi condenado pela justiça em segunda instância, isto é, definitivamente e certamente será conduzido a prisão. Outros ex-presidentes em nossa tão conturbada república já passaram por inquéritos, processos e condenações, mas isso aconteceu em momentos tensos e de ausência da democracia. Certamente Lula da Silva será o primeiro político de grande dimensão e densidade eleitoral a ser preso em um Brasil que vive o auge do estado democrático de direito e liberdades individuais.

Ao longo desses 13 anos de poder efetivo do PT e, principalmente do mito Lula da Silva, não foram poucos os avisos e concelhos ao presidente Lula sobre sua condução política. Seus aliados de última hora, boa parte deles denunciados no passado pelo petismo como corruptos e traidores da pátria, hoje assistem de camarote ou presos o fim do maior líder político e popular do mundo, bem como, a decadência do maior partido político de esquerda do ocidente.

Os amigos históricos, socialistas e comunistas, homens e mulheres que nunca se dobraram aos galanteios do grande capital financeiro e especulativo profetizaram, avisaram a Lula sobre a corda que ele estava recebendo do sistema capitalista. Alertaram que um dia essa corda seria esticada, arrastando toda a esquerda para o calabouço. Um desses profetas foi o adorável comunista Fernando Santana.

Quem conheceu o Fernando Santana, certamente pôde testemunhar o político fascinante e cordial que foi.  Sua história de vida e suas convicções o fizeram admirado pelos amigos e respeitado pelos adversários. Uma figura cativante, como bem narrou o escritor Antônio Risério, em seu livro biográfico, Adorável Comunista, que conta a história desse baiano de Irará.

Em 2005 tive a oportunidade de entrevistá-lo para o dicionário Biográfico e Histórico da Bahia, em seu apartamento na Federação, quando me revelou algumas passagens de sua vida pessoal e política. Questionei-o sobre o então governo do presidente Lula e sobre a esquerda brasileira, e o velho comunista veio com uma profecia: “o que esse pessoal está fazendo com a esquerda brasileira, com a nossa história de luta, vai levar muitas décadas para se recompor”. E completou, “a juventude está descrente, o futuro é sombrio”.

Fernando Santana não foi um político de confronto e não tinha um discurso violento e pragmático como é natural de muitos comunistas, muito pelo contrário. Encarava o debate de forma direta e franca, porém mantendo sempre a cordialidade de um homem polido e sereno. Acreditava no comunismo, não de forma imposta, mas convencendo pelo diálogo.

Em 1962, já deputado federal pelo PTB e um dos líderes comunistas na Bahia, se viu envolvido em uma celeuma com o cardial da Bahia, Dom Augusto, ao subir no palanque do candidato ao governo do estado Waldir Pires. Esse episódio foi o começo das diversas invertidas do poderoso e conservador cardial que não admitia que comunistas apoiassem candidatos a governador. Resultado, Waldir Pires que estava com a eleição razoavelmente garantida, acabou sendo derrotado pelo desconhecido prefeito de Jequié, Lomanto Junior.

Fernando Santana transitou pelo poder de forma delicada, sempre fazendo amizades. Esse perfil o fez respeitado por todos, inclusive por um ultra direitista, Plínio Salgado, líder integralista que se tornou seu amigo e o ajudou a escapar das garras da ditadura, o escondendo, intercedendo e facilitando seu exilio para a Europa.

Com a redemocratização, retorna ao Brasil e se elege em 1982 deputado federal pelo PMDB, e em plena escolha do novo presidente da república pelo colégio eleitoral, tem seu nome ventilado para assumir o ministério de Minas e Energias do candidato a presidência da república Tancredo Neves. Nacionalista convicto, em 1988 se destacou na constituinte como autor da emenda a favor do monopólio da distribuição do petróleo, pedindo o encerramento das atividades de multinacionais como a Shell, Esso, Texaco, e Atlantic impedindo-as de atuarem no mercado brasileiro.

Em 1990 foi candidato a deputado federal pelo Partido Comunista, sendo derrotado no pleito. Em 1992, fundou com outras lideranças comunistas o Partido Popular Socialista. Concorre novamente em 1994, mas não obteve êxito. Fernando Santana, filho ilustre de Irará deixou um legado de honestidade e boa convivência, cravando definitivamente sua história na história da Bahia.

Vinicius Jacob é professor e pesquisador

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