MEDINA 10 – Brasileiros seguem fortes no Tahiti

In Esporte, Surf On
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“Existem os surfistas que querem o título mundial como quem quer um sorvete, e existem os que querem o título mundial como se fosse o último respiro de oxigênio de suas vidas”. A frase é de Barton Lynch, mas foi citada por Joe Turpel e mostra bem o que aconteceu nesta terça (28) na bancada de Teahupo’o, a algumas centenas de metros de uma praia no final de uma estrada no Tahiti.

O que aconteceu foi: tudo de melhor que o surfe — e a WSL, em seu comando — tem a oferecer. Isso inclui as ondas, os surfistas, os duelos, o formato escolhido (duals heats) e, porque não, a equipe de comentaristas.

Os oito sobreviventes, que disputarão o título da etapa amanhã reúnem um grupo curioso: Jadson André [foto de capa], Owen Wright, Adriano de Souza, Jordy Smith, Gabriel Medina, Jeremy Flores, Caio Ibelli e Seth Moniz.

O que os seis primeiros da lista têm em comum? Cada um deles foi campeão de pelo menos uma etapa entre 2010 e 2011. Praticamente uma década atrás. Todo mundo no circuito tem talento. Mas a experiência, especialmente em um pico como Teahupo’o, e especialmente em um dia como esse, cumpre um papel significativo.

Os últimos dois: um rookie nascido e criado nas ondas mais cabulosas do mundo; um campeão mundial Pro Junior que se viu em maus lençóis na virada do ano ao ser comparado com o maior surfista competidor da história e com um dos prodígios (e bicampeão mundial) de sua geração, e graças a uma lesão ainda por cima.

O formato de baterias simultâneas permitiu espremer até a última gota do swell no dia. Foram 24 baterias realizadas. Mas o melhor de tudo é a quantidade (e a qualidade) do surfe. Em vários momentos, todas as quatro ondas de uma série eram surfadas. Todo mundo no outside se jogando nas bombas, um atrás do outro.

Caio Ibelli é o maior vencedor do dia, ao lado de Jadson André. Os dois se jogaram nas maiores que viram. Entenderam o mar cabuloso como um mar da vida, pegaram tubo até cansar, tomaram vacas, voltaram, tentaram de novo e pegaram ondas excelentes. Fizeram a cabeça, e vencer suas baterias foi parte disso.

Teve os caras que fizeram a cabeça mas perderam. Arrebentaram mesmo, mas toparam com alguém que foi melhor, e nada podiam fazer a respeito: Deivid Silva, Conner Coffin, Jack Freestone, Michel Bourez, Italo Ferreira, Ryan Callinan, Griffin Colapinto.

E aqueles que talvez tenham sido cuidadosos demais. Kanoa Igarashi, Yago Dora, Jessé Mendes, Kolohe Andino, Willian Cardoso, Filipe Toledo.

A corrida pelo título mundial toma novos contornos. Jordy e Medina são, por enquanto, os maiores beneficiados. Kolohe perde a camisa amarela e Kanoa praticamente diz adeus. E Italo? Italo ainda pode ganhar todas as outras etapas. E não seria uma surpresa…

É claro que há nuances em tudo isso — tanto nas atuações do dia como na corrida pelo caneco de 2019.

Jadson pegou a primeira onda do dia. De cara, uma sinuca de bico: continuar no tubo e tentar varar a última sessão sobre um coral raso ou sair pela porta do cachorro? Jad foi na segunda opção e tomou uma bomba nas costas, só pra ficar esperto.

Jadson enfrentava Kanoa Igarashi e não foi ameaçado. Em sua segunda onda, já explorou com tranquilidade o interior de uma caverna, enquanto o japonês demorou a bateria inteira pra começar a entender a dinâmica do pico. Vitória tranquila.

Na sequência, duelo de opostos: Deivid Silva, estreante no CT e em sua primeira viagem ao Taiti, contra Adrian Buchan, segundo mais velho no tour (o primeiro é Kelly Slater) e campeão em Teahupo’o em 2013.

Deivid é um dos surfistas menos conhecidos pelos gringos. O sucesso da Brazilian Storm fez com que o mundo mudasse um pouco o jeito de olhar para os novatos daqui, mas ainda há um pouco daquele velho preconceito… É claro que há. Grinders do QS, competidores impiedosos, surfistas de onda pequena. Mas Deivid não tá nem aí pra isso, porque sabe do que é capaz.

“São as ondas mais perfeitas que eu já peguei”, disse ele, depois de derrotar o veterano da Austrália. Era Teahupo’o grande e assustador e não é qualquer surfista no tour que acha aquilo as ondas mais perfeitas da vida.

Michel Bourez salvou a pele em um duelo apertado depois de ficar a bateria atrás contra Sebastian Zietz. As ondas ainda não eram, a essa altura, o que o dia prometia. Estas vieram só na bateria seguinte.

Italo Ferreira contra Adriano de Souza, um clássico desde já.

Italo deu um show. Adriano arrancava boas notas, controlando com a mão na borda sua trajetória nas morras, desde o drop até a saída por cima. Mas Italo estava dominando o pico. O potiguar pegava uma atrás da outra. Uma maior que a outra, uma mais funda que outra. Botou o rival em combinação. Adriano virou com duas bombas a dois minutos do fim. Primeiro momento do dia de pular da cadeira e soltar um grito.

Ninguém melhor que Willian Cardoso para explicar sua atuação na bateria seguinte:

“Teahupoo e Pipeline são os meus maiores desafios, hoje não me senti à vontade, tive medo, foi meu primeiro Teahupoo de verdade, grande e desafiador, não consegui me superar, mas não vou desistir, continuar surfando para melhorar minha técnica e me sentir à vontade em ondas como essa! Queria parabenizar todos os brasileiros do circuito que deram um show à parte!”

Classe.

Yago Dora entrou cheio de expectativa contra Julian Wilson. Tinha ido bem no free-surf, como ele mesmo reconheceu. Surfa de frente pra onda, gosta e tem facilidade para entubar de front-side. Faltou mais experiência em Teahupoo, talvez? Foi seu primeiro mar de responsa. Demorou mais de meia hora para pegar a primeira onda. Julian Wilson já tinha mostrado que a seletividade pode ser ardilosa ao arrancar um 9,40 (maior nota do dia àquela altura) ainda com a prioridade para a outra bateria. Mas Yago esperou, esperou… Pegou uma única onda no duelo. Não foi uma onda ruim. Fica a lição para a próxima temporada.

Gabriel foi protocolar contra Ezekiel Lau. Duas notas sete, vitória sem sufoco e sem a necessidade de se expor a grandes riscos.

Filipe Toledo perdia para Jessé Mendes em duelo de notas baixas na bateria simultânea.

Foto:  Matt Dunbar/WSL via Getty Images)

Ross Williams, técnico de John John Florence e comentarista nos momentos de ausência do seu atleta, não cansou de apontar o erro de Filipe. Segundo Ross, ele precisava ficar uns 10 ou 15 pés mais para dentro do pico. Ou parar de remar já apontando para o canal. De preferência os dois.

Filipe virou a bateria com uma nota oito. Dropou, esperou a cortina cair, avançou por dentro com passadas largas, sem mão na borda, e saiu limpo.

Ninguém no circuito tem um aspecto de seu surfe tão abertamente criticado quanto Filipe. E o motivo, em momentos como esse, fica claro: é que ele tem todo, todo o talento necessário. Filipe entuba muito e tem uma técnica refinada, tanto para a esquerda quanto para a direita, onde é um dos melhores.

Jessé, por sua vez, repetiu o que todo mundo já cansou de ver: surfou menos nas baterias do que sabemos que ele consegue e do que já vimos ele fazer.

Caio Ibelli começou a se destacar entre os nomes do dia com uma virada espetacular contra Conner Coffin. O californiano fez quase tudo certo. Surfou muito, fez a cabeça, pegou uma das maiores ondas do dia — e quando já vencia a bateria.

Mas enquanto Conner jamais ficou muito fundo em sua maior onda — algo que talvez nem fosse possível — Caio foi em uma menor e passeou por todo sua extensão, uma longa, difícil e traiçoeira corrida por dentro de um canudo que tentava sugá-lo para suas entranhas. Conner não entendeu sua derrota, nem os comentaristas que queriam muito vê-lo na próxima fase. Eles olharão o heat analyser e entederão.

Então a maior surpresa do dia: Jack Freestone ganha bem de Kelly Slater. Tubos maiores, com drops mais radicais, posicionamento mais fundo… Vitória maiúscula que de um lado joga Freestone de novo na briga por uma vaga via CT e de outro tira as chances de título do 11x campeão mundial de uma vez por todas.

Jadson tem uma atuação magistral contra Deivid na primeira bateria das oitavas. Um tempo atrás, ele falou em uma entrevista pra HC um de seus novos segredos: a respiração. Controlar a injeção de oxigênio, não deixar o coração disparar. Controlar a ansiedade. Jadson fez uma das melhores baterias de sua carreira. E na entrevista, em vez de exultante pelo resultado, vibrava serenidade. Calma, controle. Trabalho e respiração.

Owen Wright e Michel Bourez deram um show e tomaram de Italo e Mineiro o troféu de melhor bateria do campeonato até agora. Conforme o mar cresce em tamanho e risco, sobe o nível do surfe de Owen. Com G-Land de volta, talvez seja, novamente, um candidato ao título mundial.

Se Jadson luta para controlar seus instintos, Adriano de Souza, a esta altura de sua carreira, é praticamente um Buda. Mineiro fez uma bateria cirúrgica contra Joan Duru, um goofy chegado em ondas cascudas e com boa intimidade com o pico. Essa bateria e a próxima, Jordy Smith contra Julian Wilson, foram assoladas por uma calmaria de quase trinta minutos. Mineiro segurou a onda. Literalmente. Quando Joan Duru entrou em uma bomba, da qual, se saísse, tiraria nota fez, o capitão veio na de trás e arrancou um score excelente. Nem se Duru saísse e tirasse o dez ele venceria.

Jeremy Flores deu uma lição a seu jovem amigo local Kauli Vaast, que havia eliminado Kolohe Andino na rodada anterior. Por sinal, Kolohe já perdeu a camisa amarela. E, para seu azar, teve o momento registrado em vídeo com toques de crueldade. Com a prioridade, ele olha pra trás, em direção à bancada, e vê Kauli remando para o pico. O jovem local começa a mudar de direção, e Kolohe parece não entender. É uma onda que ele mesmo deixou passar. Kauli não deixa, entra, sob o olhar do futuro ex-líder do ranking, caminha tranquilo pelo tubo mais longo do duelo e deixa sua marca na corrida pelo troféu mundial de 2019.

Contra Jeremy, Kauli não teve essa folga. Tomou algumas vacas assustadores e viu Flores pegar o tubo mais cabuloso do dia até o momento.

Gabriel Medina então quebrou todos os recordes. O jeito como ele domina o pico é meio bizarro, na verdade. Gabriel pegou duas ondas em 46 minutos de bateria. 9,23 na primeira, 10 (dez) unânime na segunda. O primeiro dez do ano entre os homens. Griffin Colapinto surfou bem, pegou boas ondas, mas nem parecia uma bateria. Não ia adiantar.

Filipe surfou logo depois contra Seth Moniz. Quatro ondas surfadas para o brasileiros, nenhuma igual ou maior que quatro pontos. O estreante Seth, por sua vez, descartou um seis alto. Entubou fundo, como quis.

Caio Ibelli vai melhor que Freestone. Os dois são amigos, viajam e competem juntos há uma década, dividiram conquistas do mundial Pro Junior. Ficam felizes em compartilhar um momento mágico em Teahupo’o. Entra uma série, vem um na da frente e o outro logo na trás. Isso acontece duas vezes. E nas duas a onda de Caio é claramente melhor.

Foto:Matt Dunbar/WSL via Getty Images)

A entrada de mais ondas pesadas mudaria bastante a configuração do ranking no Circuito Mundial. Mais do que pelos resultados, pela moral que as apresentações nessas condições dão pra cada surfista.

Diz o folclore que surfista que não conquista o respeito do circo em mar cascudo, não é campeão no final do ano. Vai saber…

Próxima chamada às 13h30 desta quarta.

Resultados – Tahiti Pro Teahupo’o

Terceira rodada:

1. Jadson André 12,16 x 9,00 Kanoa Igarashi

2. Deivid Silva 10,10 x 9,34 Adrian Buchan

3. Owen Wright 12,73 x 12,36 Soli Bailey

4. Michel Bourez 11,60 x 11,23 Sebastian Zietz

5. Adriano de Souza 17,87 x 16,83 Italo Ferreira

6. Joan Duru 14,67 x 1,43 Willian Cardoso

7. Jordy Smith 13,20 x 7,74 Ricardo Christie

8. Julian Wilson 14,57 x 5,27 Yago Dora

9. Kauli Vaast 14,50 x 12,16 Kolohe Andino

10. Jeremy Flores 10,27 x 8,74 Wade Carmichael

11. Griffin Colapinto 18,10 x 14,07 Ryan Callinan

12. Gabriel Medina 14,03 x 10,00 Ezekiel Lau

13. Filipe Toledo 12,00 x 11,07 Jessé Mendes

14. Seth Moniz 14,67 x 9,66 Peterson Crisanto

15. Caio Ibelli 17,73 x 16,96 Conner Coffin

16. Jack Freestone 17,17 x 14,20 Kelly Slater

Oitavas de final:

1. Jadson André 18,23 x 11,84 Deivid Silva

2. Owen Wright 18,50 x 18,10 Michel Bourez

3. Adriano de Souza 17,50 x 9,27 Joan Duru

4. Jordy Smith 13,54 x 10,83 Julian Wilson

5. Jeremy Flores 15,76 x 13,66 Kauli Vaast

6. Gabriel Medina 19,23 x 15,43 Griffin Colapinto

7. Seth Moniz 16,40 x 6,17 Filipe Toledo

8. Caio Ibelli 18,64 x 15,83 Jack Freestone

Quartas de final:

1. Jadson André x Owen Wright

2. Adriano de Souza x Jordy Smith

3. Jeremy Flores x Gabriel Medina

4. Seth Moniz x Caio Ibelli

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